sábado, 25 de fevereiro de 2012

CRIAÇÃO



Meus pais criaram meus irmãos para sermos honestos e firmes no modo de encarar a vida. Cada um seguiu seu caminho buecando sempre o máximo de retidão possível, mas isso não foi tudo: fomos criados também para aceitar a transitoriedade das coisas. Realmente, tudo é transitório. Meu pai faleceu há dez anos, minha mãe ainda vive com as dificuldades naturais de uma pessoa de 93 anos de idade. Minha irmã mais velha conduz bem seu núcleo familiar, e eu, de minha parte, estudei muito, tornei-me medievalista, casei-me, tive 3 filhos. O mais velho dos meus meninos faleceu vítima da estupidez e do sofrimento que sofri nos porões do DOI-CODI na época da ditadura militar no Brasil. Depois, tivemos mais duas crianças que hoje são adultos de respeito e encaram a vida com seriedade. Esses dias, eu perguntava ao meu companheiro há mais de 40 anos, que flor melhor me traduziria. E ele escolheu esta: o Crisântemo. Meu pai chamava-se Chrysanto e era uma das pessoas melhores que já conheci. E eu, por minha vez, em muitas ocasiões tomei-o por modelo na hora de decidir coisas difíceis.

O Crisântemo é uma flor de muitas pétalas. O vento, a chuva, as tempestades podem até vergar o seu caule e desprender algumas pétalas, mas, passado o vendaval, lá está a flor, bela e soberana no seu canto. Quando o tempo passa, o Crisântemo murcha. Depois, vai ao solo, deixando sementes e adubando a terra. É esse o caráter da transitoriedade que existe em todos nós. Por enquanto, apesar dos meus 66 bem vividos anos, ainda não despetalei. Mas não tenho medo do futuro. Por que teria se as sementes já estão até germinadinhas?

Um comentário:

Carlos Saraiva disse...

Que bom poder deixar por aí as nossas sementes, em terra fértil e bem regada...Abraço!!!