terça-feira, 7 de maio de 2013

SOCIEDADE E CIÊNCIA


Até quase a metade do século XX não existiam os antibióticos. Certas doenças ou ferimentos tinham a morte como conseqüência; fazer uma operação cesariana era um risco infinito para mãe e criança, enfim, antes dos antibióticos, tudo era de resultado inesperado. 
Claro é que a seleção natural da espécie criava gerações mais fortes que as de hoje, em compensação, a vida média da população era muito baixa. Não havia fartura de Oscar Niemeyer ou Dona Canô por aí, nem tampouco a televisão para celebrar seus altíssimos aniversários. 
Quando a TV se difundiu, tornou-se possível fazer propaganda de campanhas de vacinação e já não era fácil que políticos porcos provocassem revoltas como a da vacina que destruiu o centro do Rio de Janeiro e mesmo de Santos e São Paulo, onde a varíola fazia tantas vítimas. E a vacina, vinda da Europa era um risquinho de ponta de caneta antiga no alto do braço onde se desenvolvia uma bolhinha causada pela reação imunológica do organismo ao vírus atenuado ou desativado em laboratório.
 Foi portanto depois da aliança das inovações técnicas com os meios de comunicação que ficou possível tornar as crianças mais bem defendidas contra doenças epidêmicas. Mais adiante, controlou-se com uma gotinha a poliomielite e certas doenças foram praticamente banidas ou reduzidas de maneira impressionante.
Hoje , tempo das novelas e das sit-com, é praticamente impossível que as famílias não tenham notícia e acesso às campanhas vacinais. As escolas tornaram-se também meio de difusão das campanhas e, as crianças, desde que nascem, já ganham cartões, onde vão construindo sua história de imunizações contra males que antigamente ceifavam tantas delas.
 Maravilha? Pode ser. No entanto, a última campanha de vacinação contra a influenza e o temível vírus H1N1, teve uma resposta pífia, inclusive em nosso município que é tão pequeno e mesmo assim tem dois canais de TV com programação e horários próprios. Tiveram que adiar o fim da campanha. No entanto, a população é estulta o suficiente para votar em palhaços e guardiães de cães de rua. 
Tem algo errado por aí. Deixa essa gente encontrar-se de novo com o vírus da raiva que anda volteando, deixa que voltem a morrer pessoas nos afagos indiscriminados aos “cães comunitários” do “ políticamente correto” José Serra, para então chorar o paraíso perdido.
 Deixem a lepra retornar com vigor por falta de diagnóstico, sacralizem o Rio Tietê, banhem-se nas bostas sagradas, e saibam: se o Haiti é aqui, a Índia já está sendo também. Confiem nos antibióticos. O uso excessivo já tornou-os resistentes a um enorme número de doenças, antes tratáveis, hoje, motivo de susto e apreensão.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

CIÊNCIA E SOCIEDADE


 

Não existe campo de trabalho mais circunspecto, silencioso e solitário do que o do cientista, seja  lá qual for sua área de atuação; na área médica e das biológicas, essas credenciais guardam um significado maior. Assim, existem milhares de laboratórios no mundo onde se pesquisa longas horas, experimenta-se mais ainda, para finalmente chegar a um resultado prático que possa ser de uso das sociedades. Estou me referindo aqui ao lance final de estudos amplíssimos, que é a picada de uma vacina que tenta limitar o alcance das doenças infecto contagiosas.
 Agora, é tempo de vacinar crianças e idosos contra a influenza, particularmente contra o subtipo H1N1. Uma picadinha no braço, talvez uma ligeira reação, e assim se imuniza populações inteiras contra o risco de uma epidemia incontrolável.
 A humanidade já foi de quando em quando vítima de reduções demográficas graves por conta de males desconhecidos. Virgílio, em suas Geórgicas, escritas na época do imperador romano Augusto, fala de uma epizootia que “atacava os animais de criação doméstica e, sendo um castigo dos deuses, matava todo e qualquer homem que quisesse salvar seu plantel”. Estudos de diagnóstico retrospectivo chegaram à hipótese de que se tratava de um surto de carbúnculo hemático, mas não há material prático para provar.
 Perto do tempo das grandes navegações, a humanidade européia foi parcialmente dizimada pela peste negra, que eles acreditavam vir dos ratos, mas passaram-se séculos para saber que o vetor era a pulga do rato, responsável pela transmissão desta zoonose.
 Em 1918, ao fim da Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola matou entre 25 e 40 milhões de seres humanos em todos os continentes. Nada se guardou de material de análise para estabelecer estudos profundos do vírus. Em 1976, começaram a aparecer mortes que lembravam a gripe espanhola. O governo americano promoveu um cerco epidemiológico e aprofundaram os estudos.
Chegou-se então a um vírus que estava presente nas aves, se transmutava nos porcos e atingia o ser humano com alta letalidade. Foi por isso que recentemente a China promoveu uma grande matança de porcos para evitar a infestação humana. E o vírus é exatamente o H1N1, talvez com alguma variante.
A Organização Mundial de Saúde mantém rédeas curtas sobre os estudos e fornece orientações bem como subsídios práticos para imunizar populações. E, com a globalização, a rapidez dos contágios é vertiginosa. Saúde Pública é uma coisa muito séria, e por ela, vacina-se,  mata-se animais de criação, enquanto os cientistas solitários buscam o isolamento,  a inativação dos vírus e a imunoterapia ideal para salvar vidas humanas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A GERAÇÃO DA UTOPIA


Venho de ler o livro de Pepetela,  autor angolano de 71 anos que conta as décadas vividas pelos jovens da esquerda angolana em Portugal desde os bombásticos anos 60. Era um grupo de estudantes da Universidade, entre os quais havia mulatos e negros vindos de Angola e, ainda, brancos, filhos de antigas famílias colonizadoras daquela terra longínqua cuja capital era Luanda. Todos freqüentavam os diversos cursos e também a "Casa", centro acadêmico  de todos os cursos.
Entre eles havia agentes da PIDE, polícia política de Salazar, mas isso não era razão para evitar que, sob o manto do silêncio, formassem-se grupos adeptos da independência de Angola. Os brancos, mesmo nascidos na colônia, eram vistos com cuidado, pois se houvesse uma guerra de independência, eles perderiam suas terras cultivadas, seus bens, e as famílias teriam que voltar à Portugal. Mas, ao fim da década de 60, grupos inteiros deslocaram-se para Paris e daí para Angola, preparados ideologicamente  para a guerra de libertação.
 No início da década de 70, estes jovens enfrentavam com armas russas os embates da guerrilha contra os tugas, que eram os portugueses do governo Angolano. Em meados desta década de 70, Portugal teve a revolução dos Cravos e então as colônias foram libertadas. Mas as lutas internas não pararam por aí pois os grupos da guerrilha estavam fracionados e não havia acordo possível.
 O que Angola ganhou na década de 80 foi uma terra totalmente tomada por minas no solo que detonavam se alguém pisasse em cima. Assim, andar por caminhos e savanas era tão difícil como andar sobre arames, com a desvantagem de que o solo minado não era visível como o fio dos equilibristas. Então, os guerrilheiros  sorviam aguardente de palma, davam-se com  nativos de diversos clãs bem como faziam uso da "liamba" que lhes tornava os caminhos menos torturantes.  Angola estava livre dos portugueses e, suas instâncias superiores eram compostas de alguns destes companheiros que haviam chegado na frente.
 A década seguinte foi sombria. Os ex combatentes ávidos de poder, entregaram-se à corrupção. Alguns, fundaram igrejas de alto proselitismo, e os demais, retiraram-se às suas profissões ou à solidão das praias. Impossível não fazer analogia com a História do Brasil, onde os honestos acabaram na "praia".

 

TOLERÂNCIA E INTOLERÂNCIA


Tenho lido uma vasta literatura Africana, de autores Lusófonos a autores de outras regiões. Dos que falam a lingua portuguesa misturada com os dialetos tribais, há gente maravilhosa como Pepetela, Luandino Vieira, Ondjaki, Agualusa, todos de Angola. De Moçambique , temos o magistral Mia Couto. Fora deste universo, é impossível falar de África sem mencionar Chinua Achebe, da Nigéria, Doris Lessing, da Antiga Rodésia (hoje Zimbabue) e, da África do Sul, o grande Coetzee, autor de um clássico chamado Desonra, que vai nos fazendo sentir desonrado a cada página. Mas, a literatura mais dolorida é a produzida pelas mulheres que deixaram a Somália e países islamizados do nordeste e norte do continente, inclusive Egito, Marrocos e outros mais. Na Somália e até no Egito, é comum entre as mulheres a prática da infibulação, que corresponde à retirada do clitóris e à raspagem dos grandes lábios para que cicatrizem de modo a garantir a inviolabilidade das virgens, ainda que por uma saída minúscula elas consigam menstruar e urinar, e apesar de muitas terem infecções que provocam fístulas e até a morte. Algumas conseguem fugir, e seu destino é muitas vezes a Holanda, onde ficam em abrigos protegidos pois se forem pegas pelas famílias, podem ser executadas sumariamente sem que isso constitua um crime.
Está na xariá, a tradição muçulmana que sustenta os governos nos princípios religiosos do islã. O clã é soberano para executar essa justiça, assim como o apedrejamento das adúlteras e outros casos mais. E as mulheres não tem acesso à educação como os homens, o que lhes rouba a capacidade de escolher o próprio destino. Cabeças cobertas e submissão. Pancadas dos maridos pois que são seu objeto. Este é o quadro de um estado teocrático, baseado ainda no que falou Maomé quando uniu as tribos nômades do deserto. Esta loucura tem mais de 1200 anos.  Aqui, na Terra de Santa Cruz, conhecemos também o braço pesado da repressão religiosa, pois Portugal foi um dos países de Santa Inquisição fortíssima. Muita gente morreu após confissões obtidas em tortura. Tivemos escravidão, e os negros eram perseguidos por suas crenças trazidas da África. Mas, o tempo passou e veio a República, que pelo seu caráter positivista separou o Estado da religião. Assim, tornamo-nos um país de crenças livres e ponto final. Mas, há notícias de que os evangélicos tem surrado gente de religião afro-brasileira e queimado templos de pagés em Mato Grosso. Será possível retornar à intolerância do passado? Não, nem que isso custe conflitos muito graves. Respeitem para ser respeitados. Corremos o risco de acabar um imenso crematório como foi Auchwitz. E assim será se consentirmos debilidades como as do Marcos Feliciano.

sábado, 6 de abril de 2013

PARA OS MEUS AMIGOS

Hoje estou ácida e tenho lá minhas razões. Meu amigo foi dispensado da página de opinião de domingo porque chateou o dono do jornal com uma declaração em que colocava o alcance do jornal abaixo da audiência de um programa de rádio. Esta questão bateu nele e nos seus fãs como sendo uma censura ideológica, coisa que nós cronistas nunca tivemos em O Mogi News. Ora, o jornal, ao ser reprogramado passou esse espaço para mim. Eu mesma de nada fiquei sabendo pois estava acostumada com minha coluna CONTRAMÃO, que até me agradava bastante.
Os fãs do meu amigo cronista então passaram a tecer comentários conspiratórios e, eu que nada tinha a ver com a questão, li nas trocas coletivas de e-mails protestos pela saída do amigo. Mas, um certo Sr Kachel, não teve o entendimento de que certas críticas podem ferir a minha pessoa, particularmente porque ultrajou o jornal como "pasquim capachildo" e equalisou-o a jornais de sistema como o PRAVDA, jornais nazistas e castristas.
Como não tenho afinidade política com qualquer autoritarismo, resolvi responder na minha coluna, direto ao Sr Kachel, que ele pode, se quiser comparar a coragem política dele com as bordoadas que sofri no período militar, com tentativa de estupro e morte do meu filho que estava prestes a nascer.
O Sr Kachel é professor universitário e deveria saber que em casos assim, é melhor calar a boca para não dizer merda. Tenho profunda pena dos seus alunos, pois seu perfil é de professor autoritário.

CRITICISMO EM CAUSA


Compreendo a tristeza de todos que se sentiram mal com a saída do meu amigo Mário Sérgio da parte de Opinião do Mogi News. No entanto, não consigo absorver a idéia de que permaneci no jornal porque talvez afine minhas idéias com o PRAVDA, ou outros fascistas, como o Sr Kachel sugere chamando o Mogi News de "Pasquim capachildo" nos e-mails que trocou com outros fãs do professor, até mesmo porque minha crônica foi parar no lugar da de Mário. Não entendem as pessoas que elas podem nos ferir muito nestas manifestações de furia? A mim pessoalmente, cabe dizer que o Sr. Kachel sabe bem pouco de minha vida. Não sabe por exemplo que estou agora naquela página por acaso absoluto do jornal,  pois não entro no campo editorial do mesmo. Mas o desconhecimento da minha pessoa vai muito além disso. Acha mesmo o Sr Kachel que o Mogi News é um "pasquim capachildo do poder"? E os demais, compartilham esse pensamento? Arre égua! Então, o que será a Revista Veja, o que serão a Folha de São Paulo e o Estadão? Se assim for, o que lêem então? Já sei: Lêem a revista Quatro Rodas, a Nova, a Claudia, a Play Boy. Que mais? Duvido que tenham uma assinatura do L'Express ou outra publicação daquele nível.
Fico pensando se nesta cidade é possível haver um jornal que não venda espaço para o poder público. Se houver, conte-me qual é. Além de atos oficiais, contam o que  acontece nesta província de Mogi das Cruzes e arredores. Há também um dia com necrológio e outro em que se divulgam as proclamas de casamento. Vou contar ao Sr Kachel como leio o jornal. Naturalmente, inicio pelo necrológio, quando há. Não importam os nomes dos mortos, e sim o sexo e a idade. Para um cientista social, é de grande importância saber a média de idade dos falecidos e tabulá-las por sexo. Podemos assim ver onde ficam os cortes de óbitos em cada época, e é possível mapear as circunstâncias destes óbitos, para então perguntar, por que a faixa dos 40 anos está mais vulnerável agora? Uma consulta aos arquivos daria as "causae mortis " e seria possível estabelecer metas para prevenção a mortes precoces. E as proclamas de casamento? Sentiram como são bem mais tardios?Viram quantos vem de União Estável transformada em casamento formal? Perceberam por acaso a transformação do perfil da família brasileira? Pois bem, se o pasquim do Sr Kachel fosse lido sob outra ótica, saberia ele que sua importância não está só nos cronistas. Mas o jornal também é um lustrador de egos. E o Sr Kachel já andou em suas colunas sociais. Kachel, odeio qualquer tipo de tirania, e aposto contigo que minha história de luta é bem mais ampla que a sua. Se quiser, frequente o passapalavra.info, ou o desinformemonos.org, e depois, conversaremos.

quarta-feira, 27 de março de 2013

UM POUCO MAIS DE FRANCISCO


Falamos em nosso artigo passado das razões pelas quais o novo Papa tomou o nome de Francisco. Hoje vou completar lembrando umas passagens da vida deste santo, não por questão de doutrina, e sim por questão de humanidade, uma vez que nem católica sou.  O trajeto de Francisco não foi nem um pouco fácil. Para fazer pregação religiosa ele mandou um grupo de seus companheiros franciscanos, e resultou disso que eles foram para a Germânia onde ninguém entendia sua língua, portanto, foram expulsos da região a pedras e pauladas. Foi um desacerto, mas o mais doido foi o do próprio Francisco, que resolveu atravessar o Mediterrâneo e provar ao Sultão que o Deus de Francisco era o único correto. Para tanto, propôs-se a caminhar sobre carvão em brasa (ordália); o sultão árabe depreendeu daí que ele era um pirado e mandou embarcá-lo de volta para a Itália.

Francisco tinha verdadeira aversão ao dinheiro. Um dia descobriu que um irmão da ordem possuía algumas moedas. Jogou as tais moedas num monte de lixo e fez o monge recolhe-las com a boca, a fim de entregá-las aos pobres. Entendia ele que bastava o pão de cada dia, a quem se propôs a viver na pobreza. Além disso, insistia em atender os pobres e os leprosos, cujas chagas lavava com carinho. Com o tempo, o povo da cidade foi percebendo a lógica do modo de viver franciscano, e então, acorriam a ele muitos aflitos, buscando consolo às aflições. De certa feita, chegou uma senhora cuja filha morrera ao dar à luz uma criança, e agora a criança ia também morrer de fome. Esta senhora segurou nas vestes toscas de Francisco, e rezou com tanta devoção que, de repente, ela própria começou a jorrar leite dos seios. Hoje sabemos que tratou-se de uma galactorréia por indução hormonal provocada por estado psíquico, mas para a época, fora um milagre. Francisco possuía um auto-domínio fabuloso. Assim, fez cauterizar uma ferida em seu próprio rosto sem recorrer a uma única erva narcótica. Depois disso, teria recebido as cinco chagas de Cristo (estigmatas). Então adormeceu, e ao despertar, confessou a um colega que sonhara ser uma galinha cujos pintinhos  fugiam debaixo das suas asas. Ele estava certo. A Ordem se desintegrava. Havia os que não aceitavam a pobreza total e queriam juntar provisões. E Francisco morreu aos 44 anos com sua Ordem despedaçada pela ganância, que ele tanto repudiava. Então, pegaram seu corpo, sepultaram em Assis e colocaram sobre o túmulo, uma grande cruz de ouro.

Gostou da História? Li todos os cronistas da época, inclusive os que conviveram com ele. Passo a todos um chiste do destino, quando pastores de outros credos alisam os cabelos e tiram as sobrancelhas para ficarem mais metrossexuais.

sábado, 23 de março de 2013

FRANCISCO


O novo papa Jorge assumiu o nome de "Francisco" e, como não poderia deixar de ser, existe uma intencionalidade na escolha de seu nome pontifical. Ele, oriundo da Ordem Jesuítica, de Santo Inácio de Loyola e das linhagens de catequistas, tomou para si o nome de Francisco, o fundador de  uma Ordem Monástica para a qual a Pobreza era o ideal de estilo de vida.
O Francisco original nasceu por volta de 1181 - século XII- e foi criado como os burgueses de sua época, em Assis. Era um fanfarrão, freqüentador de botequins e levava a vida típica de um jovem, em altas farras com seus amigos, nas tavernas, entre mulheres e vinho. Na idade apropriada, seu pai armou-lhe e mandou-o para as guerras da Apúlia, no sul da Itália. Lá, o jovem Francisco pegou uma dessas febres maláricas e teve de retornar a Assis. Então, sua mãe, que era uma doce francesa da Provença, dedicou-se ao seu tratamento, que variou de alternância entre estados sóbrios e estados de altos delírios febris.
Com o passar do tempo, os plasmódios foram se acomodando ao seu organismo e Francisco entrou em franca convalescença. Foi nesta fase que ele se deu conta da diferença que havia entre os ricos burgueses e os pobres que trabalhavam insanamente para eles, inclusive para seu pai, que era um processador e requintador de tecidos vindos do norte da Europa. Francisco revoltou-se por aquela pobre gente. Abriu as janelas dos depósitos e jogou por elas o tecido pronto estocado para a rua, onde transitavam outros pobres. Seu pai revoltou-se, sua mãe defendeu-o, mas o velho comerciante de tecidos de luxo teve que amargar o enorme prejuízo causado pelo filho.
 As bizarrices do filho estavam só começando. Na missa de domingo, acompanhou os pais à igreja e deu-se conta de que os bancos eram reservados aos ricos, enquanto os pobres amontoavam-se no chão dos fundos para assistir à missa. Viu a riqueza do altar e o rosto macerado de Cristo no crucifixo, então teve outra crise de inconformismo, gritou, e foi levado para o pátio frontal da igreja, onde discutiu, frente aos padres e o populacho, com seu velho pai. Para nada dever ao velho, ficou nu em pelo e depois, embrulhado em uma capa que o bispo lhe deu, saiu da cidade e foi se alojar na Porciúncula, que era uma velha capela em ruínas. Começou piedosamente  a cuidar de leprosos e pobres. Nessa altura, outros jovens reuniram-se a ele e criaram a ordem franciscana, totalmente dedicada aos necessitados. Mas, precisavam de ordem do papa a fim de não serem considerados hereges. Foram a Roma. Como por aquela época estivesse crescendo a heresia cátara, o papa Inocêncio III deu aos Franciscanos seu reconhecimento, para que pregassem a doutrina católica, então corrompida pelas heresias. Assim a ordem recebeu regras e passou a dedicar-se tanto aos pobres e doentes como à pregação.
Penso ser possível entender por essa rápida biografia porque o papa recém eleito tomou o nome de Francisco. As demandas da Igreja atualmente são as mesmas. Ela perde seus adeptos, não cumpre seu papel de amar a Deus e ao Próximo, enquanto a cúria destroçada está repleta de vícios e corrupção. Semana que vem volto ao tema e vamos analisar a profunda humanidade de Francisco, o santo mais universal da igreja, respeitado por católicos, espíritas e até ateus marxistas.
Você ja viu Irmão Sol, Irmã Lua em filme? Belíssimo, é baseado num livro de Nikos Kasantzakis, escritor grego marxista, e o livro chama O Pobre de Deus. Vale a pena.

quarta-feira, 13 de março de 2013

DIREITOS HUMANOS


Está o Brasil retorcendo-se de cólicas pela eleição do Deputado Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos, quando ele, sendo Pastor Evangélico, fez tantas declarações Racistas e Homofóbicas, num país onde a Constituição Federal em seus Princípios Fundamentais tenha fixado o fundamento de " promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação". Mais ainda, a Lei Máxima do país afirma que a " punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais", além do que , o "racismo constitui crime inafiançável e imprescritível". Por esse caminho, a eleição do dito Feliciano para tal cargo, parece uma daquelas brincadeiras de mau gosto de bêbado de botequim. Então, como traseiro de bêbado não tem dono, lá vai.
Feliciano, ser racista neste país significa reduzi-lo a pouco, tão grande foi o número de escravos trazidos para cá pela cobiça humana, que o tempo se encarregou de miscigená-los e fazer do Brasil um país racialmente híbrido. Não aceito que atribua a meus filhos a bobagem que a cosmogonia da sua religião fala. Ninguém é descendente de Cam mesmo porque esta história do Noé é pornográfica demais para contar a menores. Devia o petulante deputado ler Caim, do Saramago (ouviu falar?), para saber que uma parte considerável do mundo jamais ouviu o Antigo Testamento, e eu mesma, que já passei por ele muitas vezes por razões profissionais, tenho-o apenas como um documento histórico, uma simples crônica de costumes, uma cosmogonia que não diz respeito senão a uma parcela da população da terra. Tem o mesmo peso da Epopéia de Gilgamesh ou dos antigos manuais cosmogônicos da velha India , ou mesmo a tradição que ficou ,oral ou transcrita , dos maias, incas, astecas e dos nossos múltiplos índios. Por suas manifestações racistas, o senhor merecia ver o sol nascer quadrado. O STF, presidido pelo Joaquim Barbosa, terá que se debruçar sobre seu comportamento racista e nojento, para enfim pagar a dívida que este país tem com a África Negra por seus filhos prisioneiros no Brasil.
Por outro lado, sua homofobia me deixa perplexa. Do que tem tanto medo o moço Feliciano? Tenho muitos amigos(as) homossexuais e nunca fui ultrajada por nenhum deles. Sempre considerei sexualidade como coisa de foro íntimo e o medroso Feliciano vem querer ser mais popular que o Tiririca? Poupe-me. Nem Jesus, que é o vosso ídolo máximo  alijou prostitutas, homossexuais, os diferentes. Não seja o moço a fazê-lo, é muito feio passar por cima da sua Realeza Celeste.
Não idolatro a Bíblia, nem no Antigo nem no Novo Testamento. Literariamente até gosto de trechos de Matheus, mas fico por aí. Professo o Zen-Budismo que busca a paz e a tolerância. Assim criei os meus, muito embora eu saiba que existe muito mais coisa entre o céu e a terra do que supõe minha vã sabedoria. Meus irmãos Negros, Homossexuais, Diferenciados em geral, são bem-vindos ao meu lar, tem lugar à minha mesa, dialogam entre si e tem um respeito mútuo que deveria lhe servir de exemplo. Mas, ao que parece, a parte mais sábia da nação há de lhe calar a boca, antes que vire uma estátua de sal. Tome tento, Feliciano. Guarde os preconceitos para si.

quinta-feira, 7 de março de 2013

 Esse doce animalzinho foi educado para ser um exemplo para todos. Mas ele quer mesmo é ser o Tio Patinhas.

A FÁBULA DO BOM MENINO


Era uma vez certo garoto educado para ser prodígio. Ele devia ser bom em tudo. Sensível, religioso, administrador, desapegado, criativo, produtor de livros e, perfeito que era (bonitinho também), ser reconhecido pelos governantes e se tornar secretário da da Educação. E assim foi. Mas, que energia tinha esse garoto. Menino entre as raposas velhas, ao fim do expediente recolhia-se ao apartamento e dedicava-se às letras, bons exemplos aos pais, aos professores, pensamentos superiores, enfim, "fabuloso". Certa vez foi convidado para dar a aula inaugural de uma faculdade nova que abria as portas na zona leste da metrópole maior do hemisfério sul, faculdade esta que trazia o nome de um gênio da educação mundial. No entanto, na data marcada, o bom menino não apareceu. Entre ahs e ohs da platéia, substituiu-o o diretor da nova escola e fez o discurso de praxe dessas ocasiões. Não disse aos alunos que sabia o real motivo da ausência do convidado, mas algo explosivo estava, ou no ar, ou debaixo do solo onde se afirmava ter havido outrora um lixão.
Como simples narradora dessa fábula às crianças desta região, eu me limito a dizer que a situação toda fazia a escola parecer cagada de arara. Os orgãos competentes garantiram que a caca não viria de baixo, mas quis o destino que viesse de cima. Então, como foi? Pois bem, uma das mais consagradas revistas semanais (Veja), publicou na véspera a real história do piedoso menino. Secundando uma alegre foto do então já homem, acompanhado de seu amigo íntimo numa praia da França onde se banhavam ao sol, a reportagem trazia a denuncia feita ao Ministério Público pelo seu agora ex-amigo.
Conta o ex-amigo das muitas jornadas internacionais que, fora mandado ao Secretário da Educação por um empresário de ensino que pretendia vender seu produto educacional à rede de escolas do Estado. Negocião. O rapaz chegou lá e foi deveras apreciado pelo Secretário, que num estalar de dedos fez dele seu companheiro de trabalho e deu-lhe um status de Assessor de Gabinete. Ora, o rapaz era de principio funcionário da tal empresa, mas essa ficou esquecida entre outros grandes negócios "educacionais" do Secretário da Educação, entre esses, um negócio da China que se dispunha a vender antenas parabólicas para 5000 escolas.
 Quando as comissões financeiras particulares do Secretário chegavam em grandes volumes ao apartamento do bom menino, ele que dava ao dinheiro o codinome de "Vanderlei", espalhava-se no closet em meio às notas e banhava-se nelas como se fosse a piscina do tio Patinhas.Fizesse o que quisesse com o dinheiro, se esse fosse seu, e não da corrupção. Mas o bom menino conseguia ainda prodígios. Com uma comissão de ghost writers, lançou mais livros que o Paulo Coelho. 64 ao todo, para lustrar sua biografia e seu ego, nem um pouco modestos. Para quem faz carreira das letras, imagine o que foi e quantos anos levaram os bordados lingüísticos de Guimarães Rosa, talvez o maior escritor brasileiro. E o que diria Machado de Assis com uma vida dedicada à literatura? E para os que produzem ciência que levam anos para produzir um trabalho de 100 páginas? Isso me endoidece pois pertenço ao último grupo.O bom menino admitiu: "Eu estou acabado". Antes assim. Antes tarde do que nunca, e sempre sem esquecer: De bons amigos o Inferno está cheio.
E, de qualquer forma, essa intimidade de closet não nos parece um tanto intimidade demais? 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O CONCLAVE VEM AÍ


Ratzinger não morreu, logo, não há necessidade de tempo para as pompas fúnebres nem para o luto. Então, o Conclave vai ser adiantado e, logo saberemos quem herdará os pepinos de Bento XVI. Pepinos mesmo, com P maiúsculo, mas isso, todo mundo já sabia ou pelo menos uns tantos estudiosos da História da Igreja imaginavam. Pode ser muito pequeno, mas o Vaticano é um Estado independente como a Inglaterra, por exemplo. É também uma monarquia vitalícia com todos os protocolos que uma casa real pode ter. Mas não é uma monarquia absoluta, logo, resta-lhe ter todos os cargos de especialistas nas diversas causas de Estado, como chefes das finanças, da casa civil, da justiça, e por aí vai. Um Estado minúsculo como Mônaco, mas um Estado, com representação diplomática e tudo. O que difere das demais monarquias, é que o Papa não engravida nem deixa herdeiros, logo, quando o Monarca Pontifical falece, está estipulado desde 1179 que deve haver um conclave de cardeais para escolher a sucessão. A Veja da penúltima semana errou ao atribuir as eleições ao tempo do papa Nicolau II em 1059. Pobre Nicolau, ele pode até ter tido a idéia, mas como não tinha feito o curso da Justiça Eleitoral Brasileira, desconsiderou os eleitores, que naquela época eram três ou quatro cardeais apenas. Ô tristeza. Até 1179, houve tantos anti-papas quanto papas, pois os poucos cardeais eram representantes da aristocracia romana, e esta, não abria mão do poder por nada. Roma era então uma festa.De certa feita, caçaram um anti-papa, envolveram-no numa pele de animal recém imolado e fizeram-no caminhar todas as ruas da cidade no lombo de um burro, para ser bem humilhado. Quem quiser saber mais pode ler meu doutorado, da USP. Mas o papa Alexandre III, de 1179 instituiu normas para a eleição, da qual exigia maioria absoluta e um colégio cardinalício dilatado numericamente.
É de se perguntar o que mudou dali para cá. Pouca coisa, se é que podemos chamar mesmo aquele trono de Trono de Pedro do Reino de Deus. E também, as influências dos reinos de fora continuaram a exercer seu papel da mesma forma que a antiga aristocracia de Roma. O papa que mediou o Tratado de Tordesilhas era espanhol, e isso explica porque Portugal recebeu menos terras que a Espanha em 1494. Esse exemplo é só para mostrar o quanto a Igreja se metia com poderes materiais em vez de se contentar com o poder espiritual. Que dizer então do papa Pio XII que fez acordos com Mussolini para ter a  posse total sobre o Estado do Vaticano? De lá para cá, já vivi muitos papas.Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI. Vi muitos escândalos também, apimentados ou de corrupção. Agora, vivemos numa época em que o silêncio não é mais possível. Vende-se informações, as redes sociais multiplicam-nas, e cada Estado virou um Big Brother de primeira grandeza. Os desvios de dinheiro são rastreados e os hábitos pessoais que estão abaixo da batina, aparecem com clareza. Então Bento XVI fez o que fez. Do alto dos seus 85 anos, não teve dúvidas: mandou que os cardeais tivessem cópias de todos os escândalos, demitiu altos funcionários e chutou o pau da barraca.
Vale contudo indicar o Ratzinger teólogo. Seus livros sobre Jesus de Nazaré, são muito interessantes.  Recomendo o conceito de Reino de Deus. Puramente sério e abstrato.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

MOTIVOS PARA CAIR FORA


O carnaval apagou o brilho da grande cena de renuncia do papa Ratzinger.  Era bom, antes de começar a tecer meus critérios, lembrar a todos que sou técnica no assunto e li pelo menos 1800 anos de História da Igreja, ou seja, conheço do que falo.
Ratzinger, como todo alemão, era chegadíssimo ao poder, autoritário e não se vergaria por pouco. Afinal, para quem conhece a História da Igreja, sabe muito bem que o Vaticano é um Estado Monárquico, onde o monarca governa até o fim dos dias. Mas esse papa, que ainda cumpria as normas de eleição pontifical estabelecidas em 1179 no III Concílio de Latrão, cujo papa da época Alexandre III fez constar como número 1 dos cânones conciliares quais seriam definitivamente as regras da eleição, era um teólogo e erudito bom demais para renunciar assim, sem mais nem porque. Assim, elenquei uma seqüência de motivos e problemas de Ratzinger. Então, vamos lá.
1-      O vazamento dos documentos confidenciais do papa acontecido há pouco, trouxeram à tona coisas que não se conta nem à mamãe.
2-      É sabido por todos que, tão parecido como as igrejas evangélicas para onde migraram milhões de fiéis, havia muita corrupção no Vaticano.
3-      Ratzinger não era um papa sem experiência: ele foi a eminência parda de João Paulo II, papa muito amado mas que rezava pela cartilha de Ratzinger.
4-      Ratzinger dirigia a comissão de assuntos da fé, que era uma permanência escrota da antiga Santa Inquisição, e que perseguiu todos os movimentos da Teologia da Libertação até exterminá-los, condenando os integrantes da Igreja dos pobres ao silêncio, tal como fez com Leonardo Boff no Brasil.
5-      Ratzinguer era contra o casamento dos padres, insistindo na castidade dos tempos de Paulo, quando ter família era um perigo para os sacerdotes pois o cristianismo era perseguido. Depois,o celibato foi mantido para evitar que a riqueza da Igreja se dispersasse entre os filhos de padres. Assim, fantasiava-se que mulher de padre virava mula sem cabeça e seus filhos não podiam ser reconhecidos.
6-      Como se homossexualismo não fosse uma simples contingência humana, Ratzinger, em pleno século XXI mantinha uma homofobia escandalosa.
7-      Muito pior, o papa, vendo o continente Africano sucumbir à tragédia da AIDS, ainda fez o desfavor de discursar calorosamente contra a “camisinha”. Demonizou o sexo como até então poucos o fizeram.
8-      Admitiu a pedofilia dos padres, autorizou pagamentos de indenizações milionárias, mas silenciou o quanto pode estes problemas tão graves numa igreja de sexualidade reprimida.
9-      Caiu certa vez no ridículo de afirmar que o diabo existia, que era uma entidade horripilante, com cara de bode e outros atributos, assim como afirmavam as feiticeiras do século XVI quando estavam sendo interrogadas sob tortura por inquisidores fanáticos ou pessoas que queriam expropriar os bens dos condenados. Pese que o papa Ratzinger acreditava na castidade dos velhos moldes, e mesmo que achasse que sexo só serve para fazer filhos (daí a Igreja Católica ter se esvasiado), ele foi um mau chefe de estado pois comungou com árabes, judeus, chefes tribais africananos, para quem a poligamia é tolerada por questões de costumes ou rituais. Para ele, a política do cala-boca valia mais do que o discurso frenético contra o diabo rabudo.
10-   Finalmente, o Diabo veste Prada.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

AS LENTES DOS NOSSOS ÓCULOS



Uma cronista casual, escreveu na semana passada que São Paulo fazia 559 anos mas não tinha o que comemorar. A lente pela qual ela viu os horrores paulistanos, foi a lente que usa, a do Instituto Médico Legal, por onde passam todas as tragédias de um lugar. Ela foi muito infeliz em considerar minha cidade pela ótica da violência, pois São Paulo não se resume ao que acontece no mundo do trágico ou da suspeição. São Paulo pode ser vista sim com outras lentes mais coloridas e belas, mostrar uma megalópolis que não para nem de dia nem de noite, que tem a melhor Universidade da América do Sul, o museu mais precioso que é o MASP, repleto de Renoir, Van Gogh, Modigliani, Degas entre outros, um acervo de esculturas nas ruas e nos museus, avenidas gigantescas e imensas pontes para ligar as diversas partes da cidade, parques e jardins monumentais.

O planalto (cuore) entre a Serra do Mar e a da Cantareira, esta última precedida de um Horto Florestal de beleza inigualável, torna São Paulo  gigantesca demais para caber numa crônica desalentada de quem quer que seja. O próprio IML de São Paulo, lá no fim da Teodoro Sampaio, é uma pequena ponta do maior parque hospitalar, o Hospital das Clínicas, com tantos prédios e uma variedade tão grande de especialidades que, foi lá o lugar onde o Dr. Zerbini fez o segundo transplante de coração do mundo e depois decretou a interrupção do método pois que havia de se estudar mais de imunologia para entender o processo de rejeição. A pausa dos transplantes demorou mais ou menos uma década, e hoje, vivem mais transplantados nessa terra que em qualquer lugar do hemisfério sul.

 Só não vê belezas em São Paulo, quem não quer. E os que não querem, deveriam partir, pois o maior problema paulistano é a superpopulação. Então, tudo o que acontece aqui é mega. Mega eventos, mega desastres, mega greves, mega maternidades, mega tudo. Se, num acidente paulistano morrerem 234 pessoas, será proporcional ao tamanho da cidade. Assim também o número dos mortos em acidentes de transito e outros óbitos mais. Tudo grande, porém sem obscurecer o que a cidade tem de bom.

Santa Maria, cidade de menos de 300.000 habitantes, sofreu um trauma gigantesco neste último fim de semana. Dentro de uma casa noturna pereceram 234 jovens, a maioria com idade para ser meu filho. Gente bonita, com vontade de construir uma vida, foi ceifada pela raiz sem choro e sem porquês. Fosse uma favela que flamejasse sobre dutos de petróleo, que diriam os mais céticos? Que houve uma seleção natural da espécie? Sem dúvida, a comoção teria sido bem menor. Infelizmente existem eugenistas.

Aqueles jovens, tinham ideais... Assim, choro muito por Santa Maria, tenho uma dor no peito só de pensar que qualquer um dos mortos ou feridos podia ser meu, e lamento que o capítulo da irresponsabilidade não esteja contido na ordem comum da violência, essa diária que vai ao IML. Santa Maria, tão festejada pelos gaúchos pela sua população universitária, jamais será a mesma. Terá uma faixa de luto amarrada na entrada da cidade, até que o tempo passe e uma névoa de dor antiga se estabeleça perto dos jazigos.

Sofro quando passo pelo monumento aos soldados de 1932, meu pai entre eles, mas isso não tira a beleza do Ibirapuera onde as crianças correm sobre as gramas que homenageiam os que lutaram pelo Brasil Constitucional.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

MINHA SÃO PAULO

Quando era pequena, morava no município de São Paulo que, amanhã, completa 559 anos. Na minha distante infância, tive a oportunidade de assistir a comemoração do quarto centenário (1954), e eu tinha apenas 8 anos. Naquela época, a do quarto centenário, o velho rádio de válvulas do meu pai ficava ligado muitas horas por dia. De manhã havia as rádio-novelas, produzidas em minúsculas salas com a voz e as bugigangas dos atores, cuja função era fazer os barulhos parecidos aos que teriam de cenário... e as mães de todos os lares choravam com as heroínas, vibravam com os heróis, odiavam os vilões. Enfim, era uma soma de vozes, ruídos, enredos, acrescentados da força imaginativa das ouvintes vorazes...

Hoje, é impossível a uma pessoa mais nova ter noção do mundo pré-televisão. A TV acabou com esse apelo imaginativo dando o serviço completo, rico de imagens, sons, belos artistas, cenários maravilhosos, tudo isso muito enriquecido com os comerciais que entram sub-repticiamente entre os diálogos e as cenas da montagem da telinha.

Outra coisa que os mais novos terão dificuldade de compreender, é o lado poético de uma cidade cortada pelos bondes, com iluminação precária, e sem os altos edifícios que hoje elevaram-se para atender à demanda de moradores cada vez mais abundantes na capital. Na verdade, mais do que uma simples capital administrativa, São Paulo tornou-se também a capital das oportunidades, o centro onde nada falta, do mais rico traje ao mais rico automóvel, das mais tonitruantes liquidações aos mais incríveis lugares de produtos contrabandeados e muitas vezes vendidos sobre panos brancos nas calçadas, passíveis da recolha truculenta dos fiscais, ainda que fazedores de alegres consumidores de música e óculos escuros.

Realmente, não há como comparar a velha São Paulo com a nova. E, eu, paulistana de nascimento, muitas vezes me sinto nostálgica da velha cidade. Havia menos gente e era muito mais segura. Nós íamos a festas , os bailes animados por grandes orquestras mandavam seleções musicais das 22,00 às 4,00 da madrugada e, então, nosso grupinho, de smoking e gala completa, sentava-se nos degraus do comércio fechado para bater papo até que o primeiro ônibus começasse a circular. Então, trajados qual pingüins e cinderelas, voltávamos aos nossos lares enquanto os trabalhadores iam ao trabalho. E nada disso chocava quem quer que seja.

Naturalmente, naquele tempo havia uma repressão de costumes mais ampla. Nos bailes, dançar de rosto colado já apontava para um futuro compromisso. As moças mais ousadas eram chamadas de Maria Maçaneta, e os rapazes que não perdiam uma seleção nem para tomar um ingênuo cuba-libre, tinham o apelido de arroz-de-festa. Os pais sabiam de tudo o que se passava com seus filhos, pois de quando em quando uma pessoa de mais idade “cismava” de querer ir ao baile, pois afinal, sentia saudades.

Saudade, eis o nome correto que eu dou à falta que me faz o sossego daquela época. Maconheiro, naquele tempo era batedor de carteira. Os automóveis não faziam o trânsito virar um inferno. E nós pensávamos no futuro, nas nossas profissões pois, naquela ingenuidade, queríamos um dia ser reconhecidos com nossos atributos de dedicação. E, São Paulo, terra boa, terra da garoa. Um beijo de aniversário no fundo do seu coração.E que obtenha de volta a paz que nos era tão cara.