As mulheres de Jorge Amado (IV)
Gabriela ficou entristecida ao separar-se de seu Moço Bonito. Assim, reduzida à solidão, tratou de acompanhar a parteira Arminda em seu trabalho, bem como a bordar e costurar no tempo que lhe sobrava. E Nacib também caiu numa solidão sem fim. Nem as garotas do Bataclã conseguiam lhe agradar. Além disso, com a dragagem do porto, o progresso de Ilhéus avançava e requeria um bom restaurante. O chefe da oposição política associou-se a Nacib, bem como outros produtores de cacau que não queriam servir de capacho aos velhos coronéis; assim Nacib pode inaugurar seu restaurante e, para tanto, buscou Gabriela de volta. O casal reconciliou-se e a vida de ambos, o árabe e a retirante, estava restabelecida sem os protocolos que a sociedade anterior exigia. Gabriela pode voltar à sua puerilidade e ele ao status de Moço Bonito. Pouco depois disso, o velho coronel Jesuino que matara a mulher e o amante, foi a júri, sendo condenado pelo assassinato, coisa que nunca antes se vira na Bahia.
Gabriela é antes de tudo uma história de resgate e de perdão. Marca bem o rompimento de Jorge Amado com o autoritarismo e a desumanidade do comunismo stalinista que conhecera até o início da década de 50. Ao mesmo tempo, é possível ver o sufoco de sua ortodoxia anterior, graças ao estupendo memorialismo de Zélia Gattai, sua esposa.
As mulheres reais e as imaginárias de Jorge Amado não se limitam, contudo, ao que vimos até aqui. O autor escreveu muito e expôs outros perfis femininos notáveis. Na primeira metade do século XX, suas obras tinham um conteúdo compromissado com os destinos do país, Na verdade, sua literatura acompanhava a linha nacional de Sérgio Buarque e Gilberto Freire. Sua recaptação do indivíduo na história, contrariou o método opressivo do regime comunista e as exigências que o Partido fazia sobre ele, pressões que nem de longe outros autores tiveram. Em obras anteriores, descrevera mulheres, valentes, sem dúvida, mas desprovidas da feminilidade gostosa que ele escancarou depois. Sua última publicação política antes do rompimento foi a obra “O cavaleiro da esperança”, sobre Luis Carlos Prestes. Na década de 50, ainda se concedeu ao luxo de publicar “Os subterrâneos da liberdade” (1955). Depois disso, entregou-se a uma literatura mais lúdica, da qual não escapou sequer seu maravilhoso trabalho “Tenda dos Milagres”, em1969.
As mulheres que sucederam Gabriela, foram todas tipos deliciosos. Quem poderá esquecer a rica Tieta, dona de bordel em São Paulo que se diz por correspondência “muito bem casada”,e que,vinda ao agreste visitar a família que lhe expulsara por descabaçamento, inicia sexualmente o sobrinho Cardo, filho da feroz irmã carola Perpétua, que o havia destinado ao seminário? E Dona Flor, dona de escola de culinária Sabor e Arte, casada com o boêmio Vadinho de quem enviuvou precocemente mas voltou em espírito a lhe atormentar pois o segundo marido era regrado: sexo, duas vezes por semana, com bis opcional aos sábados?
Ai, que saudade de Jorge Amado...
terça-feira, 10 de julho de 2012
As Mulheres de Jorge Amado (III)
Hoje falo da principal mulher parida pela imaginação de Jorge depois que retornou ao país em 1952, após o nascimento de sua filha. Em 1958, veio ao mundo Gabriela que, como muitas de suas obras, tem edições em dezenas de idiomas.
Não pensem os telespectardores da série “Gabriela”, que verão nesta compacta história o que de fato aconteceu na verdadeira história de Gabriela Cravo e Canela. Por avanços e também carências do trabalho televisivo, o que se vê – tão tarde da noite, aliás – é uma bela adaptação feita por Valcir Carrasco e dirigida pontualmente pelo jovem Mauro Mendonça. O cenário foi remontado no Projac com requintes de perfeição. Só que no livro de Jorge, o início acontece de forma violenta, com o assassinato de Dona Sinhazinha mais o dentista Osmundo, pelo frio coronel Jesuíno Mendonça, e se Jorge iniciou sua obra com o assassinato, muito justo segundo os homens de Ilhéus da época, ele tinha a intenção de trabalhar os avanços de uma elite do cacau pelo atropelamento da História. Gabriela, seus quitutes, seu corpo e as beatas, tudo isso aparece depois.A procissão para pedir chuva não existe. Fora das quengas do Bataclã, Gabriela, soberana, as beatas, caricatas, os coronéis donos da vida e morte de outrem, fora Nacib e uma anêmica oposição, o resto são licenças para tornar o enredo mais palatável ao público em geral, pois, ler o livro dá um trabalho imenso e, tem complicadores nas narrativas de tipos psicológicos ou então de cenas que se tornariam chatas ou repetitivas. A trilha sonora foi retomada da novela anterior e junta Dorival Caymi, Gilberto Gil e a magistral sinfonia para Gabriela, de Jobim, um patacão de ouro da música clássica brasileira.
Gabriela tinha a vida natural vibrando em seu corpo. Escultural e bonita, seduziu Seu Nacib além de todos os homens que freqüentavam o Bar Vesúvio. Lá se instalou vinda da terra gretada pela seca do nordeste, não impôs salário para trabalhar de cozinheira e, em momento algum aceitou as ofertas para ser a “teuda e manteuda” de qualquer coronel rico que ia babar aos seus pés. Deitou sim com seu Nacib, a quem chamava de “moço bonito”, e era assim que queria ficar. Era simplória e pueril. Tanta beleza, tanto peito e tanta bunda, enriquecia apenas com uma flor nos cabelos, pois tinha seu modo infantil, quase instintivo de viver. E foi por isso que, depois de casar com Nacib, não agüentou sapatos nos pés nem vestidos de madame, nem jóias...queria sua vida anterior, seu homem, sua alegria. E nesse vacilo, Tonico Bastos deitou-se com ela, pôs chifres no afilhado Nacib.
Ela não via que isso pudesse ser ultrajante. Pois o tio não lhe usara desde menina?Não dormira com retirantes do mesmo modo como repartia com eles a pouca água e a comida? E agora tinha que deixar o moço bonito Nacib por tão pouco?
Entristeceu, foi costurar para Dora habitando de favor a casa da parteira, deixando seu moço bonito com o coração despetalado.Na semana que vem, veremos a intenção da verdadeira trama e as demais mulheres do imaginário de Jorge Amado.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
As Mulheres de Jorge Amado (II)
As mulheres de Jorge Amado (II)
Semana Passada estávamos no exílio do casal Jorge e Zélia num palácio da Tchecoslováquia, e Zélia encontrava-se em vias de dar a luz. Como o palácio ficava longe do hospital, ela deixou o filho mais velho com amigos e o casal desceu para a cidade onde permaneceriam, no apartamento de Pablo Neruda, até o momento de internação. Zélia estava enorme, inchada, quando bateu à porta do apartamento um enviado do Partido Comunista, que ordenou a Jorge que viajasse imediatamente para a Alemanha a fim de fazer companhia a Anita Leocádia Prestes, menina ainda, filha de Luis Carlos Prestes com Olga Benário, esta última morta num campo de concentração nazista depois de ter sido deportada por Getúlio Vargas. A história de Anita era comovente, mas Jorge alegou que sua esposa ia dar à luz em algumas horas, e não podia deixá-la sozinha. O mensageiro, mais enfático, respondeu: eu sei. Mas ela pode ir sozinha ao hospital.O Partido está acima dos indivíduos! E Jorge embarcou contragosto, deixando Zélia só. Na Alemanha sua cabeça estava em Praga. Ele esperou por Anita até que um membro do Partido contou-lhe que a menina não viria mais. Jorge correu de volta para Praga; para seu gaudio, Zélia ainda não entrara em trabalho de parto e, no dia seguinte ele pode ver o nascimento de sua filha a qual deu o nome de Paloma, remetendo ao símbolo da paz entre as nações, tal como sugeria a delicada pomba de Pablo Picasso.
Até 1952 o casal e seus dois filhos permaneceram no exílio. Viajavam por toda a Europa a fim de participar de eventos sobre a PAZ. Zélia ia em companhia de Jorge, mas nem sempre podia estar com ele. Na Polônia, por ex., ele foi para o local da conferência enquanto ela ficou alojada num palácio expropriado de algum nobre e destinado à recuperação de gente que sobreviveu aos campos de concentração. Ali, Zélia viu os desastres que a guerra provocou na natureza. Por desequilíbrio ecológico, os percevejos proliferaram em demasia e chegaram a nutrir-se do sangue dela e de seu filho João, que lhes acompanhava. Depois dessa e tantas outras experiências no exílio, em 1952, com Paloma ainda pequena, o casal e os filhos voltaram para o Brasil, instalando-se no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, mesmo tendo escrito uma obra celebrando Luis Carlos Prestes, Jorge rompeu com a militância no Partido e passou a viver de suas obras. O mundo mudara e o Brasil também. Até então sua literatura fora politicamente engajada, com Jubiabá, Mar Morto, Capitães da Areia, Terras do Sem Fim. Agora, ele podia jogar-se de peito aberto à Bahia. Vieram os tempos da Bossa Nova e da malemolência. Então, Jorge comprou um terreno no Rio Vermelho, em Salvador, e ali construiu sua casa, onde escreveu seus romances mais lúdicos e recebeu intelectuais do mundo inteiro. A vida virou uma celebração para o casal e seus filhos. Então, ele estava livre para Gabriela, Tieta, Tereza Batista, Dona Flor e tantas outras que lhe vinham à imaginação. Sobre elas, meus leitores, aguardem a próxima semana. (continua)
As Mulheres de Jorge Amado (I)
AS MULHERES DE JORGE AMADO (1)
São muitas as mulheres que Jorge Amado criou em suas obras: Gabriela, Dona Flor, Tieta e outras. Todas são altivas e cativantes, mas ele reserva um espaço para as velhas chatas, as beatas e fuxiqueiras. Os homens também são antológicos: Ramiro, Nacib, o falecido marido de Flor, o seminarista filho de Perpétua, e até o Quincas Berro D’Agua. É natural que Jorge Amado seja conhecido no mundo inteiro por suas histórias ao mesmo tempo picantes, violentas, ou cheias de críticas sociais. Então, podemos dizer que parte do que se conhece do Brasil lá no estrangeiro, aconteceu pelas traduções que se fez dos seus livros, e a lente com que este país é visto, reflete o que Jorge colocou em suas principais obras. No entanto, o escritor, para além da ficção, teve também as mulheres de sua vida. A começar pela mãe, mulher forte e poderosa no seio da família, ele teve uma primeira mulher, depois, foi viver com Zélia Gatai.
Desde sempre o escritor baiano se identificou com os comunistas. Fez parte do Partido Comunista, participou da constituinte pós Getúlio Vargas, fez passar a lei da liberdade religiosa (não entende História da Religião no Brasil quem não leu sua “Tenda dos Milagres”), mas, quando o Partido Comunista foi proibido no Brasil, Jorge partiu para a Europa onde ficou vários anos. O que temos de mais fidedigno da biografia do autor, nos chegou, no entanto, através dos escritos de sua segunda e eterna esposa, Zélia Gatai. Dela, podemos dizer que é uma das maiores memorialistas brasileiras, e por ela, ficamos sabendo das manias de Jorge, de seus amigos, de sua vida no Brasil e no Exterior.
Zélia lançou um primeiro livro, “Anarquistas,Graças a Deus”, para celebrar a vida de seus pais e a educação que recebera quando garota. A partir de então, ela escreveu um expressivo número de obras onde narra períodos da vida do casal no Exterior e no Brasil. Aí sim, ela expõe Jorge Amado através de uma lupa afetiva única, e, no mesmo pacote, conta das pessoas com quem o casal se relacionou, das alegrias e tristezas, das decepções no trajeto ideológico e assim por diante.
Fugidos do Brasil, fizeram primeiro ponto de parada em Paris. Lá, Zélia arrumou uma babá para seu filho, uma francesa que entendia o português uma vez que tivera um romance com um comunista brasileiro também foragido. Esta moça engravidara e o Partido Comunista não só separou o casal como fez a mãe mandar a criança para longe, por restrições morais impostas pelo Partido. A consciência desse fato invasivo da individualidade teria sido um dos primeiros a provocar mal estar no casal Zélia-Jorge.
Permaneceram na França mais um período, porém a França do Pós Guerra expulsou os estrangeiros comunistas, e então eles se mudaram para a Tchecoslováquia, onde ficaram alojados num palácio destinado a intelectuais. Jorge a essa altura havia recebido o Prêmio Stalin da Paz. O palácio ficou sendo o novo lar da família Amado. Zélia engravidou e, teve Paloma neste local.(Continua)
terça-feira, 12 de junho de 2012
MEDEIA, A VINGADORA
SERÁ QUE EXISTE UMA MEDEIA CONTEMPORÂNEA?
Creio que sim. Medéia, na mitologia grega é a feiticeira que ajuda jasão a recuperar o velo de ouro, na epopéia dos Argonautas. Depois, foge com jasão e o velo precioso mas leva o irmão de refém. Na fuga, para retardar o pai que quase lhes alcança, vai jogando pedaços do corpo do irmão pelo caminho, e o velho segue para recuperar o filho todo. Mas Medeia não fica por aí. Tomada de paixão doentia por Jasão, quando descobre que ele se apaixonou por outra, manda para a rival uma roupa. A rival veste a roupa e morre queimada pela mesma. E a vingança continua. Medeia mata os dois filhos porque a ela interessa o sofrimento terrível do companheiro traidor.
Ciume doentio geralmente acaba em tragédia. Formidável. Não fossem os mitos não poderiamos entender certos comportamentos , digamos, anti-sociais. Seria lenda se não fosse verdade. Seria cômico se não fosse trágico. Cá entre nós, estamos falando de gente que não joga limpo...
Creio que sim. Medéia, na mitologia grega é a feiticeira que ajuda jasão a recuperar o velo de ouro, na epopéia dos Argonautas. Depois, foge com jasão e o velo precioso mas leva o irmão de refém. Na fuga, para retardar o pai que quase lhes alcança, vai jogando pedaços do corpo do irmão pelo caminho, e o velho segue para recuperar o filho todo. Mas Medeia não fica por aí. Tomada de paixão doentia por Jasão, quando descobre que ele se apaixonou por outra, manda para a rival uma roupa. A rival veste a roupa e morre queimada pela mesma. E a vingança continua. Medeia mata os dois filhos porque a ela interessa o sofrimento terrível do companheiro traidor.
Ciume doentio geralmente acaba em tragédia. Formidável. Não fossem os mitos não poderiamos entender certos comportamentos , digamos, anti-sociais. Seria lenda se não fosse verdade. Seria cômico se não fosse trágico. Cá entre nós, estamos falando de gente que não joga limpo...
MULHERES QUE MATAM MARIDOS
A Rede Globo volta a apresentar o “remake” de Gabriela, novela baseada na obra de Jorge Amado com o singelo título de “Gabriela, Cravo e Canela”, que retrata a saga dos nordestinos que fogem da seca e a saga dos coronéis cujas terras e bens foram conquistados a tiros e assassinatos. Se a novela de agora tomar os mesmos rumos da que fez sucesso a décadas atrás, ela deverá começar com o assassinato de uma esposa pelo marido ciumento e, depois fará rolar o romance de Nacib e Gabriela dentro do contexto da sociedade do cacau. Jorge Amado não deixava passar em branco um tempo histórico de mutações sociais, de forma que, a cidade liderada pelo patriarca Ramiro Bastos, ao conhecer sua morte condena e leva para a cadeia o coronel que no início da trama torna-se uxoricida, ou seja, o assassino da mulher paga caro por ter matado em nome da honra.
Este tipo de crime, apesar da antecipação de Jorge Amado, teve desfechos de absolvição de réus até poucos anos atrás. Encontrava-se sempre uma forma de culpar a vítima para isentar o réu. Entre os últimos julgamentos rumorosos, na primeira metade dos anos 80 houve nas portas do Forum da Praça João Mendes uma verdadeira batalha entre camelôs e as feministas que esperavam a condenação do cantor Lindomar Castilho pelo assassinato de sua ex-esposa, Eliane de Grammont. Os camelôs queriam a absolvição, então, como o clima estivesse muito tenso, o Forum foi vedado ao grande público para não prejudicar os trabalhos da justiça. Assim, enquanto uma batalha campal se desenrolava na antiga Praça, lá dentro, o júri, não contaminado pela opinião pública, mandou o assassino para a cadeia, onde ficou pelo menos 7 anos vendo o sol nascer quadrado.
Bem mais raro, nem por isso menos grave, é acontecer o contrário. Normalmente, as mulheres traídas saem de casa e muitas vezes, não havendo intercessão da justiça, nem dinheiro recebem para manter a prole que levam consigo.
Então, a morte do senhor Kitano Matsunaga, é o reverso da medalha, trazendo o requinte do brutal método de descarte do cadáver. Elise fez literalmente picadinho de marido. Depois, com infantil inabilidade, jogou os sacos com o corpo do falecido lá para as bandas de Cotia, remetendo essa história terrível ao mito de Medeia que fugiu com Jasão após a conquista do velo de ouro, mas, para retardar a perseguição de seu pai, ia pelo caminho jogando pedaços de seu irmão Absirto, e o pai, seguia recolhendo os pedaços do filho. Mais tarde, Medeia foi traída por Jasão, então matou a rival e os próprios filhos... Mas, Elise ficará por aqui, presa, contida. Seu marido a traía e ela escolheu a vingança. Ela é uma assassina e, o morto, até agora não deu provas de uma conduta familiar razoavelmente boa. Ele traiu, ela matou. Não há atenuantes nem para a moral do moço nem para a vingança cruel da nova Medeia.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
CONTRAMÃO
DURA VIDA DE POLÍTICO
Meus queridos leitores, estou de volta e agradeço aos muitos que reclamaram minha ausência no jornal. Hão de convir comigo que, de vez em quando a máquina cerebral precisa ser azeitada para funcionar melhor, porém, consertei o que precisava e retornei para matar as saudades do jornal e iniciar uma nova fase. Desta vez, inauguro uma coluna de nome Contramão, pois me ocorre muitas vezes que a sociedade segue em fluxo contínuo pela linha certa, até ser atropelada por uma ou mais pessoas que vem em sentido contrário para badernar os rumos corretos em que andamos. É natural que esta coluna tratará do insólito e por vezes do dolorido, mas, quem sabe, ela não irá contribuir para por em causa acontecimentos que nos parecem banais, no entanto são ofensivas e aviltantes e nós, no fluxo da placa de trânsito, estamos tão acostumados a ver que nem reclamamos mais.
Para primeira trombada escolhi a que é mais geral ao país: Vida de Político. Quem, em sã consciência é capaz de assistir noticiários sem se enervar? Respondo: NÒS. E querem saber por que? De tão longa data vemos as pessoas crescerem sem mérito, enriquecerem sem trabalhar, gastarem nosso dinheiro com terras, mansões, vagabundas, viagens sem proveito social, banquetes romanos e outras coisas mais, totalmente fora da lei, e nós, que só fazemos na vida trabalhar, pagar impostos e caminhar nos trilhos da norma social, calamos acompanhando a novela das empreguetes ou a da Maria Chuteira, rindo das contradições como se elas não fossem nossas, como se não fossemos espoliados quando o direito de outrem é desrespeitado na telinha e na vida.
E agora, no cenário da política, vemos tribunos da plebe calarem quando nós os pagamos para falar, e falar muito. Não me admira que o palhaço Tiririca, deputado escória do riso popular, fique sem processo por falta de decoro quando declarou simploriamente que vai concorrer como “puxador de votos”. Cansados de levar trombada de quem vem na contramão da decência, calamos qual cabra recém parida no pasto.
Cabe na cabeça de alguém (que não seja empreguete diarista), que as instituições políticas de Brasília recebam deputados e senadores para ajuntamentos que vão de terça a quinta feira? E que calem quando indagados sobre seus atos quando arguidos por comissões de inquérito da própria assembléia? Neguem ou confirmem, mas falem, pois o único instrumento que o político de Brasília tem é exatamente a voz, para fazer discursos, conchavos, negócios que talvez não possam ser registrados em papel.
Pagos para falar, pagos para defender causas, pagos para argumentar, pagos para defender os incautos, as vítimas da mão de obra escrava...quando sabemos que há políticos escravocratas. E as pessoas riem das empreguetes. No entanto, a maioria delas não tem registro, INSS, férias, horários respeitados, vale transporte e por aí vai.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
LEMBRANÇAS DO MEU IRMÃO
Hoje, 9 de maio, fazem três anos que o meu irmão Sérgio faleceu. Ai, que tristeza e quanta saudade. Ele era um ano mais velho do que eu, então, passamos a infância brincando juntos no maravilhoso quintal da nossa casa, tão bem cuidado de plantas, árvores, gramados, jardins de hortências e tudo o que se pode imaginar de um imenso terreno plano, com caminhos para passeio de bicicleta e muito mais.
Crescemos. Fui ao colégio das freiras aprender a ser uma moça prendada para ter um bom marido. Ele foi para um colégio leigo, onde nos juntamos alguns anos depois. Íamos juntos a festas, nos divertimos muito. Mais tarde, ele foi estudar medicina veterinária e eu História, na mesma USP, a melhor universidade da América do Sul. Estávamos sempre juntos, foi bem a época da ditadura militar. Nós abominavamos aquele autoritarismo, e fomos juntos para os protestos e passeatas. Em 1972 casei-me com um colega de turma de meu irmão, que se tornara amigo pessoal desde 1964. E eu não era uma moça prendada nem contida como nossos pais queriam. Mesmo casada, ainda militava contra a ditadura, mas meu irmão escolheu outro caminho. Tornou-se alcóolatra e não pudemos cuidar dele pois minha mãe não deixava. Casou-se com uma boa moça, teve dois filhos, mas enviuvou rápido demais.
Em 1997 seu organismo protestou de tanta injúria; minha mãe deixou então que cuidássemos dele. Nunca mais bebeu. Trabalhava com farmacologia e ficou por onze anos cuidando da vida, sem mulher e com filhos em fase de formação.
Durante este tempo, voltamos à amizade que consentia tudo, menos o álcool. E, quando esses onze anos se passaram, sobre a antiga cirrose veio o câncer. Foi um periodo muito doloroso para nós. Ele entendia o que estava acontecendo e ficou no hospital a consolar quem o visitava.
Naquela época eu estava fazendo uma reforma nas salas de casa e tinha que assentar piso novo. Pois bem, debaixo de cada lajota, há lágrimas que eu chorava por ele. O pedreiro me consolava e eu pedia a ele que me deixasse chorar. Na noite do dia 9 de maio ele faleceu. Suas córneas foram doadas e, no dia seguinte, domingo, dia das mães, desceu ao túmulo onde agora, quando muito pode receber algumas flores. Ele se foi sabendo que nós o amávamos demais, porém, como disse-me uma amiga, precisava ser tão cedo?
terça-feira, 24 de abril de 2012
VIVA O BLOG
No Blog não tenho férias. afastei-me temporariamente do jornal mas meu Blog continua no ar. Espero manter constância no que escrevo pois este é meu forum favorito. E sabem mais o que? Devo ao meu pai a arte de ler e escrever. Ele era sábio e lindo; continuou assim até partir.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
26 de abril
Depois de vários anos e mais de 250 matérias escritas na Tribuna Livre, senti necessidade de dar um tempo e excluir tarefas que carecem de data certa e antena ligada. Umas férias, digamos assim.
Não estou me despedindo dos meus leitores, quem sabe apenas dando um até breve, pois preciso arrumar as prateleiras da minha vida. Aos que me conhecem bem, digo que muitas inquietações merecem muitas respostas, e para aquietar a cabeça, só mesmo parando um pouco. Assim, abro mão momentaneamente da coluna como neguei fazer bancas examinadoras a que fui convocada. Só não posso abrir mão de mim mesma. Nem da minha mãe velhinha que tem 93 anos, está completamente lúcida e mal consigo visitá-la. Nem do meu marido e dos meus filhos que também ressentem do meu distanciamento em ocasiões que eu podia caminhar junto a eles.
Escolhi esta data para dar um até breve a todos e agradecer as deferências do Mogi News com sua competente administração, seu conjunto de funcionários maravilhosos, e o meu querido amigo Márcio Siqueira que abriu-me as portas da casa com o carinho que sempre lhe foi peculiar.
Mas não escolhi ao acaso esta data para iniciar minhas férias. Esperei 26 de Abril por ser este o dia em que meu pai, se vivo fosse, estaria completando 101 anos de idade. Ele era um homem simples, sem escolaridade, mas com grande formação autodidata. Foi o homem que me estimulou sempre a progredir em meus estudos, alcançar o ponto mais alto da minha carreira acadêmica e, também, a nunca renunciar ao amor, à honestidade intelectual, aos princípios de moral sólidos e uma ética eficiente.
Agora, tem dez anos que meu pai faleceu. Por vezes, sinto que foram dez dias, tão grande é a presença dele em mim.
Quanto aos rumos do Brasil e do mundo, se estivesse vivo teria as mesmas torções estomacais que eu tenho. Quanta gente morta em guerras inúteis, quanta gente morrendo de fome no meio da fartura. Isso seguramente era demais para ele, um homem que lutou em 1932 pela Constituição do Brasil. Ele não teria coração para ver tanto enxovalhamento da nossa bandeira e dos nossos ideais.
Percebem agora, meus leitores, quais são as prateleiras internas que tenho para arrumar? Como posso sepultar meu filho morto pela ditadura se todos os dias vejo crianças cadavéricas comendo restos de lixo enquanto se gasta fortunas com coisas que seriam absolutamente dispensáveis? Como posso imaginar que vivemos numa democracia se todos os nossos atos são comandados por propagandas sub-liminares terríveis? De-me um tempo, querido leitor. Não estou entre os que oprimem, roubam ou praticam atos lesivos ao próximo. Mas estou, definitivamente no Outono da Existência.
Na vida de cada um existe um ponto em que temos que focar nossos interesses mais imediatos. Meu pai foi exemplar quando fixou esse ponto em sua vida. E nunca faltou com os filhos, com a esposa, com os netos. Ele era doce como um favo de mel recem colhido, e seguiu assim até seu último dia de vida. Eu estava com ele quando nos despedimos um do outro. Ele, muito cristalino, disse: Filha, estou morrendo. E tranquilamente respondi: Está, meu pai, mas não se inquiete: um dia, lá diante a gente se vê. E ele foi em paz, numa linda tarde de por de sol de trombeta, como diria Emília de Rabicó, minha mentora infantil.
terça-feira, 17 de abril de 2012
TEM SAÍDA ?
Imagine você, meu companheiro , que um dia fomos para o agreste pernambucano e lá tivemos que sobreviver. Coca Cola? Sim, isso não falta em lugar algum. Mas, e a comida? Come-se o que há para vender na região. Então, que tal experimentar umas empadinhas de carne, crocantes e saborosas? Vamos lá, a fome é sempre maior que o senso crítico: as empadas, amigo, são mais gostosas que o pão borrachento usado para os sandubas de mortadela. Então, duas Cocas e quatro empadas. Tudo sem saber que, no longo processo de digestão, o seu organismo vai metabolizar e jogar na corrente sanguínea o que está contido nos melados da Coca Cola e nas massas e proteínas das empadas. É isso aí. Podemos continuar nosso caminho, nosso estômago aliviado. E agora, para onde vamos? É tão bom caminhar ao léu... Melhor ainda, depois de dias e dias de caminhada, conhecemos mais um pouco do Brasil e estamos em casa, no conforto do leito e no bem bom da mesa, quando, ligamos a televisão e ela nos mostra o filme da região por onde andamos... Só que a notícia é das mais terríveis: Um homem e suas duas mulheres assassinavam pessoas e, depois, aproveitavam o que não comiam para rechear as deliciosas empadas que vocês comeram. Comovente, não? Vocês também participaram desta insana comunhão, se bem que involuntariamente.
E agora? Há um só banheiro na casa, pouco espaço para vomitar. E vomitar também não ajuda, já está tudo metabolizado... Então, o coração se angustia. Meu Deus, comi carne humana sem saber, acabo sendo a cadeia final deste banquete macabro e nada posso fazer. Ora, deixa pra lá. Sua má experiência não foi a única nesta terra onde nosso maior canibalismo é comer o Corpo de Deus na santa comunhão. Eis o mistério da fé!
Bem, os assassinos já estão presos, sua casa foi incendiada pelo povo enojado. Mas, cuide-se. Pode ser que a experiência se repita, a gente nunca sabe.
Na Alemanha, durante a Segunda Guerra, fuzilaram uma velhinha bondosa que vendia bolinhos aos soldados. E os bolinhos eram feitos de algum incauto que ela atraía, matava, descarnava e aproveitava... Assim contava minha avó.
Quanto a mim, lembro de ter ido visitar uma amiga com bebê recém-nascido no Parque Continental, em São Paulo. Minha amiga Dirce fez um chá para nos oferecer. Disse apenas que a água não andava muito bem então ela fervia duas vezes. Tomamos os nossos goles de chá e voltamos para casa. Dias depois, Dirce telefonou: Sabem por que a água estava estranha? Porque mataram um homem e jogaram o corpo na caixa d’agua do condomínio. Tudo bem, você comeu empada de gente, eu e meu marido tomamos chá de defunto. Fique calmo. Existe sim pecado do lado de baixo do Equador, contrariando o velho Chico Buarque.
E agora? Há um só banheiro na casa, pouco espaço para vomitar. E vomitar também não ajuda, já está tudo metabolizado... Então, o coração se angustia. Meu Deus, comi carne humana sem saber, acabo sendo a cadeia final deste banquete macabro e nada posso fazer. Ora, deixa pra lá. Sua má experiência não foi a única nesta terra onde nosso maior canibalismo é comer o Corpo de Deus na santa comunhão. Eis o mistério da fé!
Bem, os assassinos já estão presos, sua casa foi incendiada pelo povo enojado. Mas, cuide-se. Pode ser que a experiência se repita, a gente nunca sabe.
Na Alemanha, durante a Segunda Guerra, fuzilaram uma velhinha bondosa que vendia bolinhos aos soldados. E os bolinhos eram feitos de algum incauto que ela atraía, matava, descarnava e aproveitava... Assim contava minha avó.
Quanto a mim, lembro de ter ido visitar uma amiga com bebê recém-nascido no Parque Continental, em São Paulo. Minha amiga Dirce fez um chá para nos oferecer. Disse apenas que a água não andava muito bem então ela fervia duas vezes. Tomamos os nossos goles de chá e voltamos para casa. Dias depois, Dirce telefonou: Sabem por que a água estava estranha? Porque mataram um homem e jogaram o corpo na caixa d’agua do condomínio. Tudo bem, você comeu empada de gente, eu e meu marido tomamos chá de defunto. Fique calmo. Existe sim pecado do lado de baixo do Equador, contrariando o velho Chico Buarque.
terça-feira, 10 de abril de 2012
DELÍRIOS DE FÉ
Ganhou espaço na mídia a louca história do Judas de Itararé que, na encenação da Paixão de Cristo, acabou se enforcando de verdade. Não fosse o elenco descobrir o fato 4 minutos depois, lá se ia uma vida pelo caminho do teatro da fé. 4 minutos não é tempo demais?
Itararé é uma cidade pequena que fica no sul de São Paulo, divisa do Paraná. Morei em Itapeva alguns anos, o suficiente para perceber que a região tem carências enormes, senão de comida, pelo menos de inteligência. Enfim, acho que vão ter mais cuidado com o Judas da peça, pois o susto educa.
O que não dá para entender é o surto delirante de fé espetacular que vivemos no dia de hoje. Digo espetacular, porque as manifestações religiosas das diversas seitas cristãs que temos por aí, tornaram-se escandalosas, lembram a Marília Pêra no teatro interpretando Apareceu a Margarida, vários anos atrás. A diferença está no envolvimento do protagonista (padre, pastor e afins) com a platéia. Gritam eles e a platéia grita junto. Parece torcida de futebol, e coitado de quem mora perto. Esses teatros da fé não tem isolamento acústico e, queira ou não, somos submetidos a ouvir com regularidade o que se passa dentro dos vários templos religiosos.
Moro agora no ponto alto do Mogi Moderno. Quase frente a frente, concorrem para a perda da tranqüilidade do lugar uma mega construção da Assembléia de Deus e outra enorme igreja de Santo Antônio que chega às raias da insanidade de ter no campanário, alto-falantes para que as informações e as músicas juninas cheguem ao ouvido de toda a população.
Sou budista por convicção, e o meu nicho de manifestação exige silêncio. Porém, não sou respeitada, pois a igreja de Santo Antônio vaza o som das missas e cultos especiais direto para as janelas de casa. E o templo da Assembléia, faz exatamente o mesmo, quando os pastores berram ao microfone e os fiéis gritam nos chamados momentos de glorificação. Dia desses, tomei banho, vesti minha camisola (discretíssima aliás) e, como não conseguisse ler ou dormir, peguei um xale, joguei nas costas e fui andando pela calçada, abduzida pelo berreiro, até chegar aos degraus do templo. Do atrium, conferi: é isso mesmo, a Sociedade do Espetáculo se impõe a nós... Dias depois, a semana santa. O povo da vigília no sábado de aleluia fazia a igreja virar um show de gosto duvidoso. Santo Antonio protestaria.
O que peço humildemente a esses delirantes? Contenham-se. Afinal, aqui há gente de muitas religiões diferentes. Manifestem sua fé com mais discrição pois Deus tem bons ouvidos. Se não for pelo bom senso, terá que ser pela via da justiça. Afinal, a Constituição Brasileira dá igualdade de direitos a todos os fiéis, qualquer seja a sua fé.
Itararé é uma cidade pequena que fica no sul de São Paulo, divisa do Paraná. Morei em Itapeva alguns anos, o suficiente para perceber que a região tem carências enormes, senão de comida, pelo menos de inteligência. Enfim, acho que vão ter mais cuidado com o Judas da peça, pois o susto educa.
O que não dá para entender é o surto delirante de fé espetacular que vivemos no dia de hoje. Digo espetacular, porque as manifestações religiosas das diversas seitas cristãs que temos por aí, tornaram-se escandalosas, lembram a Marília Pêra no teatro interpretando Apareceu a Margarida, vários anos atrás. A diferença está no envolvimento do protagonista (padre, pastor e afins) com a platéia. Gritam eles e a platéia grita junto. Parece torcida de futebol, e coitado de quem mora perto. Esses teatros da fé não tem isolamento acústico e, queira ou não, somos submetidos a ouvir com regularidade o que se passa dentro dos vários templos religiosos.
Moro agora no ponto alto do Mogi Moderno. Quase frente a frente, concorrem para a perda da tranqüilidade do lugar uma mega construção da Assembléia de Deus e outra enorme igreja de Santo Antônio que chega às raias da insanidade de ter no campanário, alto-falantes para que as informações e as músicas juninas cheguem ao ouvido de toda a população.
Sou budista por convicção, e o meu nicho de manifestação exige silêncio. Porém, não sou respeitada, pois a igreja de Santo Antônio vaza o som das missas e cultos especiais direto para as janelas de casa. E o templo da Assembléia, faz exatamente o mesmo, quando os pastores berram ao microfone e os fiéis gritam nos chamados momentos de glorificação. Dia desses, tomei banho, vesti minha camisola (discretíssima aliás) e, como não conseguisse ler ou dormir, peguei um xale, joguei nas costas e fui andando pela calçada, abduzida pelo berreiro, até chegar aos degraus do templo. Do atrium, conferi: é isso mesmo, a Sociedade do Espetáculo se impõe a nós... Dias depois, a semana santa. O povo da vigília no sábado de aleluia fazia a igreja virar um show de gosto duvidoso. Santo Antonio protestaria.
O que peço humildemente a esses delirantes? Contenham-se. Afinal, aqui há gente de muitas religiões diferentes. Manifestem sua fé com mais discrição pois Deus tem bons ouvidos. Se não for pelo bom senso, terá que ser pela via da justiça. Afinal, a Constituição Brasileira dá igualdade de direitos a todos os fiéis, qualquer seja a sua fé.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
GENTE RESSENTIDA
Neste último domingo, li numa coluna deste jornal o artigo de um pressuposto artista plástico, destilando veneno contra a administração pública, intelectuais e doutores e, até mesmo contra alguns de seus colegas de profissão. Um destemperado, pensei. Esse sujeito quer se tornar a metralhadora giratória do município e para isso entrega aos abutres até gente que alguma vez se compadeceu dele. Ele atende por JAM, uma sigla artística que lembra o nome de empresa aérea e tem com as tais empresas, em comum, apenas a fumaça e o descompromisso social... Mas, de la para cá, fiquei matutando sobre os reais objetivos do desclassificado, até mesmo porque sua escrita é desconexa e ele não é claro no que reivindica. Tem um desafeto, isso fica claro, e suas setas voltam-se contra o Secretário da Cultura antes de atingir todos os outros.
Acho que não tenho mais paciência com o tipo encardido de pessoa que JAM é. No entanto, como pertenço à galeria dos atacados pois sou intelectual e doutora, resolvi, pelo menos em meu nome, responder algumas coisas ao milhafre bestão.
Um doutorado e uma carreira acadêmica não se constroem por sorte ou acaso do destino. São necessárias muitas horas de estudo, tempo infinito de raciocínio e maturação, a composição de uma tese consistente e, finalmente, uma defesa voraz do produto final com bancas examinadoras muitas vezes extremamente exigentes. Isso tudo exige do candidato um recolhimento e uma disciplina ardorosa. E quando se tem o diploma de doutor nas mãos, há ainda os que desqualificam esse esforço ou pretendem nem saber do que trata nossa esfera de pensamento científico.
A vida intelectual que começou muito antes do acesso ao doutorado, então passa a ser cobrada com vigor. A partir daí, prestei um concurso público, me tornei orientadora de pós graduação na UFRJ e precisava entregar sistematicamente os relatórios da minha produção científica. Assim, trabalhei 47 anos da minha vida, e, ao me aposentar, dei continuidade às publicações científicas em periódicos especializados ou me entreguei a este exercício de cronista por simples prazer. A vida com os livros me agrada bastante, e isso é tudo.
Sucede que, nos tantos espaços de sociabilidade, conheci muitos artistas plásticos da região, pessoas boas de quem adquiri obras de arte para meu deleite. Tenho muito respeito por todos. Respeito também a turma da música, do teatro e assim por diante. Comungo com todos a necessidade de um centro cultural para onde possam convergir, expor, aprender, etc. Mas não sou artista nem posso aceitar críticas emanadas de um sujeito sem eira nem beira do qual jamais vi obra alguma. Sugiro que aprenda a ter classe e profundidade com Rafael Puertas.
Acho que não tenho mais paciência com o tipo encardido de pessoa que JAM é. No entanto, como pertenço à galeria dos atacados pois sou intelectual e doutora, resolvi, pelo menos em meu nome, responder algumas coisas ao milhafre bestão.
Um doutorado e uma carreira acadêmica não se constroem por sorte ou acaso do destino. São necessárias muitas horas de estudo, tempo infinito de raciocínio e maturação, a composição de uma tese consistente e, finalmente, uma defesa voraz do produto final com bancas examinadoras muitas vezes extremamente exigentes. Isso tudo exige do candidato um recolhimento e uma disciplina ardorosa. E quando se tem o diploma de doutor nas mãos, há ainda os que desqualificam esse esforço ou pretendem nem saber do que trata nossa esfera de pensamento científico.
A vida intelectual que começou muito antes do acesso ao doutorado, então passa a ser cobrada com vigor. A partir daí, prestei um concurso público, me tornei orientadora de pós graduação na UFRJ e precisava entregar sistematicamente os relatórios da minha produção científica. Assim, trabalhei 47 anos da minha vida, e, ao me aposentar, dei continuidade às publicações científicas em periódicos especializados ou me entreguei a este exercício de cronista por simples prazer. A vida com os livros me agrada bastante, e isso é tudo.
Sucede que, nos tantos espaços de sociabilidade, conheci muitos artistas plásticos da região, pessoas boas de quem adquiri obras de arte para meu deleite. Tenho muito respeito por todos. Respeito também a turma da música, do teatro e assim por diante. Comungo com todos a necessidade de um centro cultural para onde possam convergir, expor, aprender, etc. Mas não sou artista nem posso aceitar críticas emanadas de um sujeito sem eira nem beira do qual jamais vi obra alguma. Sugiro que aprenda a ter classe e profundidade com Rafael Puertas.
terça-feira, 27 de março de 2012
HUMOR E JUSTIÇA
No último fim de semana, quando o Brasil perdeu um de seus maiores humoristas, a TV Globo ocupou a maior parte do seu tempo em relembrar os tipos que Chico Anysio criou, sua história de vida, a imensa família oriunda dos seus 6 casamentos, filhos, netos, e por aí vai. A Globo retomou também entrevistas que ao longo do tempo o humorista deu para a imprensa. Como um exercício de análise jornalística, vi tudo de cabo a rabo. Não descuidei de um único material pois, para quem é historiador, qualquer falha pode ser fatal. As entrevistas que ele deu ao longo dos últimos anos, foram extremamente valiosas pois, tirando a última em que ele conta os passos de sua recuperação até aquele momento, e se tornou amostragem emocional do conjunto, nas demais ele deixa escapar as técnicas da exposição do humor.
Fiquei com as palavras do Chico reverberando na cabeça até que de repente, não mais que de repente, descobri que o humor tem tudo a ver com a justiça. Sabem porque? Ambas as peças literárias são compostas do fim para o começo. No humor, o autor parte do desfecho da historinha; depois cria o enredo para ela. Por exemplo, aquelas velhas piadas sobre a mocinha sem pernas que arranjou um namorado. “O pai dela preveniu o rapaz: você pode fazer tudo com ela, abraçar, beijar e até chegar aos finalmentes, só não pode esquecer depois de retirar minha filha da forquilha da árvore”. Este fim, mudando os elementos do todo, tem uma formula garantida de sucesso.
Quanto à justiça, a coisa acontece mais ou menos do mesmo modo: existe o fato pronto (não que ele seja isento de humor, muitas vezes é trágico) para que as peças do jogo sejam montadas uma a uma até chegar ao fim que já está lá, exposto, escancarado para todos.
Mais ou menos como o pai zeloso no humor pede ao namorado que tire a garota da árvore, a justiça tem (ou deveria ter) um grande final que prevenisse futuras ocorrências. Mas não tem, pois a jurisprudência e os vazios da lei acabam por estimular que novos e velhos canalhas tornem a proceder de maneira ilícita. E isso ficou claro no dia da cremação do Chico. O tempo foi dividido em blocos: um de lembranças do mestre do humor, e outro dedicado às porcentagens que os corruptos levam nas licitações oficiais.
Humor e ilícito cruzam-se também em outras situações. Quem, medianamente zeloso de seus órgãos genitais, aceitaria esconder dinheiro na cueca? Ou jogar a namorada morta ao repasto dos cães? Ou usar seu talento futebolístico para tentar se safar de crime grave? Ou em nome de um falso pudor, negar exame de paternidade a uma pessoa só porque é vice presidente? Como comportamento social, humor e justiça andam de braços dados, quem sabe já não é hora de desatrelar as partes?
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