terça-feira, 26 de maio de 2009

Mia Couto

Um dos autores contemporâneos que tem feito a minha cabeça, é , sem dúvida, o moçambicano Mia Couto. Cabeça boa, estudou medicina, biologia e tornou-se ambientalista, daqueles que suja as botas para examinar a desordem ecológica dos sítios. Seus livros vem sendo editados pela Companhia das Letras, a editora que fareja os melhores talentos do mundo.
Pois eu amei Mia Couto. Seus romances, todos tem como cenário as terras de Moçambique. Variam contudo os dramas humanos, ainda que o cenário da devastação das guerras coloniais seja onipresente. Mistura os naturais da terra com os vindos de Goa e os remanescentes lusitanos. Belas obras. O outro pé da sereia deixou-me com o sabor de um inconsciente coletivo que pouco se movimenta entre cá e lá. Frente a tantas incertezas, melhor retirar-se ao exílio da terra calcinada onde apenas as cabras insistem em balir. O longo período histórico que abarca a montagem literária, apenas nos oferta a medida da insignificância humana.
Mas é pela humanidade que luta e escreve Mia Couto. Da terra, ele é um dos grandes. De África, até pouco tempo tínhamos Karen Blixen e Antonio Olinto. Hoje, Mia, o escriba branco, rende-se à magia ancestral para buscar a redenção do Homem.

Perdas irreparáveis

Semana passada, não escrevi minha coluna porque meu irmão havia falecido após curta e dolorosa doença. Minha cabeça ficou tão oca que era impossível até chorar. Nesta segunda, abro a Folha e leio a notícia do falecimento de Mario Benedetti, escritor uruguaio pouco lido no Brasil. Você já leu Benedetti? Tenho em minha frente três obras suas: Gracias por el fuego, A trégua e Primavera num espelho partido. Mário deixou uma obra alentada, mas as editoras brasileiras, demoraram a traduzi-las. Como elas foram censuradas por razões políticas, ficaram por décadas no esquecimento. Depois, tem essa coisa: o mercado editorial quer lucro, então fica mais fácil investir em auto-ajuda ou literatura especulativa. Vai daí que, alta porcentagem de páginas impressas não alimenta o cérebro, apenas as finanças, então, porque editar gente como Benedetti, um exilado político nas ditaduras dos anos 70? Assim, ele foi esquecido. É como se a América Latina só tivesse Vargas Lhosa, Isabel Allende, Gabriel G. Marques e, num segundo momento, Borges, Neruda e Carlos Fuentes. No entanto, a América Latina é um celeiro de talentos literários e, acrescentando o Brasil, eu diria sem medo que vivemos no século XX a mesma grandeza literária que a Europa .
Mario Benedetti viveu 88 anos. Dos livros dele, Gracias por el fuego e Trégua trabalham com dramas existenciais, com o sentimento de impotência para melhorar a situação do mundo, e também com a ternura que pode amenizar o impasse de uma aposentadoria. Belos livros, traduzem sofrimentos da alma para reconduzir suas buscas. Mas, Primavera num espelho partido, consegue chutar o pau da barraca das convicções humanas.
Existe amor? Por certo existe. Mas ele acaba? Talvez não, porém se esgarça ao longo do tempo, no distanciamento objetivo e nas intenções humanas. É isso que acontece com as pessoas em tempos de guerra e repressão. Esta, foi a história da minha juventude. Reconheci-me no livro. Com a morte de Benedetti, tudo veio à tona. Meus olhos represados desde a morte do irmão, agora abriram-se em cascata. Chorei até molhar o travesseiro e os lençóis. Pelo Sergio, pelo Mário e por todas as dores do mundo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Enterrem meu coração na curva do rio - ou, reminiscências da dor

ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO

Em fevereiro de 1973, logo depois que foi enterrado meu primeiro filho e cessaram as perseguições políticas contra mim, li o livro de Dee Brown cujo nome dá título à minha coluna de hoje, e chorei a cada página o genocídio que os colonizadores norte americanos praticaram contra os índios para lhes tomar as terras. Este livro me ajudou a superar o luto; mais que isso, fiz uma catarse vomitando as dores do mundo, chorando a um só tempo o meu filho, os índios da América, a escravidão negra, as vítimas das guerras, as mães da Praça de Maio, os caídos de toda a violência social da ditadura sob a qual vivíamos.
E agora, justamente ao completar 63 anos de idade, fiquei vidrada frente à TV, vendo a posse do primeiro presidente negro dos EUA. Dia longo de comemorações, a primeira dama, uma negra charmosa, vestia amarelo e caminhou a pé, de mãos dadas com seu marido, acenando alegremente ao povo que se comprimia nas laterais da avenida. Havia festas na África e em várias partes do mundo, mas a TV foi discreta em apresentar as festas juvenis do OUT BUSH, que deviam estar, aliás, muito mais animadas.
Os negros dos EUA foram tão segregados, que após a lei contra o preconceito, de 1968, eles se apresentaram ao mundo como uma etnia orgulhosa e altiva. Tiveram ascensão social através das escolas e igrejas, impuseram-se enfim, ao contrário de seus irmãos brasileiros cuja luta passa por derrotar o falso mito da democracia racial.
Agora vem a hora da ação. Será que a chegada de um negro ao poder conseguirá estancar os genocídios que se perpetuam pelo mundo afora em nome da ganância dos grandes capitalistas que não hesitam em matar para possuir? Será que, frente a uma crise econômica violenta, frente ao desemprego , os EUA poderão auxiliar na criação de uma nova ética para a convivência entre os povos e para a diminuição da miséria mundial que eles próprios ajudaram a crescer? O mundo de hoje, apesar dos avanços técnicos, está muito pior e mais violento que o de 1973. Se um negro nos EUA for desprovido de sensibilidade, ele que vem de uma história de dor e discriminação, então eu peço humildemente: enterrem meu coração na curva do rio.

Algumas fotos de Salvador

Filha de Oxóssi vai à luta
e fotografa um capitel da Ordem Terceira do Carmo.

Sente-se uma galinha preciosa dentro de um ovo de 800 kilos de ouro da Ordem Primeira do Carmo.

Faz uma visita ao mosteiro de São Domingos, mas se
apaixona mesmo pela igreja da Ordem Terceira do Rosário
dos Negros, onde, neste dia estava sendo batizado o neto
do Chico Buarque.









Visita o Bonfim, vê a Igreja, mas se apaixona mesmo pelos sobrados republicanos do entorno.





Bahia


Fui à Bahia de Todos os Santos, mais precisamente ao centro histórico de Salvador. Fiquei oito dias visitando igrejas, museus, candomblé (quase peguei o Antonio Olinto por lá), e tudo que remetia à primeira capital do Brasil, ao enredo de Boca do Inferno, de Ana Miranda, à saga Viva o povo brasileiro, do João Ubaldo, ao sonho de Ines Pedrosa de nome A Eternidade e o Desejo, à magistralidade da obra de Emmanuel Araújo, intitulada O Teatro dos Vícios, e por aí vai.

Só que o chão da cidade é irregular demais, o que me fez detonar a coluna vertebral, e depois disso ficou difícil sentar. A foto do mar atrás das grades do Solar do Unhão, é talvez a melhor expressão do que senti durante os meses que sucederam tal passeio. Enquanto não era possível botar o traseiro na cadeira do computador, fiquei na minha senhorial cama, lendo. Aliás, durante este tempo de recolhimento, elegi o melhor livro dos que foram lançados em 2008. Trata-se de A VIAGEM DO ELEFANTE, do magnânimo SARAMAGO. Em outra postagem, passarei algumas outras fotos. Por agora é só.


Tempo

Tempo

Gosto muito da letra de Caetano Veloso em sua música Tempo. "Es o senhor..."
Sim, tenho senhores, e o Tempo é um deles. Há outros: meu cachorrinho Yorkshire Greg House, minha gata Kika, algumas obrigações diárias e as pessoas amadas que me cercam. Parece muito, mas não é. O importante é estar à disposição dos meus senhores conforme o contrato sinalagmático que estabelecemos.
Meu Blog andou paradinho até que meu amigo Jônatas passeou nele e eu fiquei envergonhada com minha desatualização. Bem, temos coisas novas de agosto de 2008 para cá. Vamos a elas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

EM política, QUERO SABER TUDO

QUERO SABER TUDO

É um direito que tenho. Por eles, vou sair de casa e votar numa urna eletrônica; a partir daí, para o bem ou para o mal, eles me representarão. Exatamente por falarem em meu nome, quero saber tudo sobre os candidatos. Em primeiro lugar, a idade, a profissão, a capacidade de escutar o que os outros tem para dizer. Depois, como é sua família, se seus filhos são estimulados a estudar, se lêem, se são alegres e bem resolvidos, se a esposa não é apenas um enfeite ou uma vaquinha de presépio. Afinal, é deste nicho doméstico que eles saem, mais ou menos agressivos, mais ou menos atenciosos, mais ou menos saudáveis da cabeça.
Tenho medo dos políticos. Aprendi com Maquiavel que, em matéria de poder, não importam os meios desde que os fins sejam atingidos. Tenho medo porque, passados tantos séculos depois de Maquiavel, muitos políticos continuam pensando exatamente isso. Não entraram nas esferas da ética, mantiveram-se como aduladores, fazedores de conchavos aos quais nunca temos acesso.
Acordos políticos vão muito além das coligações que assistimos há pouco tempo nas convenções partidárias. Os maiores acordos acontecem na calada da noite, atrás de copos de uísque, com palavras ditas em baixo tom para que ninguém escute. Sempre envolvem questões de dinheiro, de protecionismo, de compadres, de ganhos pessoais. De vez em quando ainda se coloca mulheres no meio dos negócios e há quem registre sordidamente os encontros para futuras chantagens. Enquanto eles andam de carrões, a justiça do país caminha sobre carros de boi ou charretes engalanadas, dependendo do grau do magistrado.
Há sempre um palhaço de plantão. Ele é ótimo pois desvia as atenções do distinto público, o qual, perdido frente a tal parafernália de campanha, é tangido a votar com os dedos, mas sem usar a cabeça.
Tem mulheres que votam em candidatos bonitos; tem outras mulheres que não votam em mulheres porque acham que elas não são capazes de fazer boa política. A inconsistência dos eleitores provoca o desastre na composição dos governos. Por isso preciso saber tudo sobre eles: os políticos e o povo. E este, é um processo muito dolorido. São as dores do parto de uma verdadeira democracia.

PAI

PAI

Nada mais justo do que dedicar estas linhas a você. Sinto tanta saudade da sua terna presença e, no entanto, ainda me surpreendo a querer lhe contar qualquer coisa que me aconteceu de especial. Só que o telefone não funciona mais. Você não se encontra sentado ao lado do aparelho, lendo seu jornal ou o último livro do pedaço; tudo ficou para trás na espiral do tempo, como soe acontecer em todas as famílias. Bem dizia um amigo, “a orfandade é uma merda”.
Sou uma órfã velhinha, quando você partiu eu já tinha 57 anos, nem por isso a tristeza foi menor. Talvez o tempo tenha me dado a real dimensão do que um pai é capaz. E, creia, meu velho, um pai pode tudo porque tem um manancial inesgotável de sentimentos bons. Tirando os degenerados mentais de quem a justiça tem dado conta, os pais são uma instituição que não caiu fora de moda. As mulheres que gostam de produção independente, que me perdoem, elas não tiveram um pai como o meu. Que outra pessoa poderia ter tanto carinho ao levar meus dedos pelas letras de uma página e ensinar o significado das sílabas? Quem mais me faria amar o chão, a chuva, os pássaros e as plantas como essenciais para o gáudio da nossa vida? Que outra pessoa me contaria aventuras de caça e pesca com tanto realismo que eu me sentia dentro delas? Qual homem sobre o planeta me daria broncas apenas com o olhar e encerraria as mesmas dizendo somente: “nunca mais faça isso”?
Meu pai não julgava as pessoas de maneira leviana. Ajudava os necessitados sem que os outros percebessem. Não era rico, mas fazia de sua essencialidade uma profunda riqueza. Tinha uma casa e era grato por isso. Não faltava comida, então sempre cabia mais um em sua mesa. Até o último dia foi verdadeiro comigo, mesmo para dizer que estava morrendo. Tive que concordar, pois era só a verdade que lhe interessava. Teve os olhos brilhando para mim enquanto viveu, e me serviu de facho luminoso nos momentos mais sombrios da minha vida. E, foi por ele que aprendi a amar os outros homens, inclusive àquele a quem emprestei meu ventre para se tornar pai dos meus filhos. Abençoados sejam os homens da minha vida.
Sua filha,
Ivone

quinta-feira, 17 de julho de 2008

TELEVISÃO - SÓ "HOUSE" e alguma notícia

Meus amigos:

Creio que ultimamente temos bem pouco a nos agradar na vida política, social e econômica do país e do mundo. Abro os jornais diariamente e caio de costas com as notícias mais disparatadas. Leio o que interessa, vejo as tabelas climáticas, acompanho pela rama as intrigas na administração superior do país, me irrito com a parte internacional, confiro o necrológio e sigo para a parte cultural do periódico. Não deixo de ler as HQ e resenhas de filmes, livros e músicas. Paro por aí, já é suficiente. Na parte da tarde a vida corre no escritório. Tem sempre um monte de leituras a fazer, cartas a responder, internet a consultar.
As 17:00 horas paro com tudo. Intermezzo para namorar, afagar o gato, tomar banho, depois, jantar. Se ficamos em casa, temos que fazer alguma coisa. Muita gente vê televisão, acompanha notícias e novelas, depois algum filme terrivelmente dublado. Não aguento isso. Se algo especial acontece, vejo notícia. Se nada de novo se coloca, a casa permanece em doce silêncio até a hora do "House". E que ninguém telefone. House inunda minha vida de maneira deliciosa. Heroi políticamente incorreto, mal-humorado, mulherengo, viciado em analgésicos, ele tem o dom de perseguir as mais incríveis patologias com uns insights fabulosos. Bem que todos iam querer um médico assim. Os roteiros são magistrais e os artistas da série soberbos. Quando acaba House, desligo a tv e abro um suculento livro. Bom demais, não é?
Ivone

ASSÉDIO

AS VÍTIMAS DO ASSÉDIO
Este tema tem sido abordado de formas variadas, principalmente a forma sexual, uma vez que o sexo faz parte da intimidade mais restrita das pessoas e é por esse viés que elas se sentem mais atingidas. De um tempo para cá, ganhou vulto a imagem do assédio profissional, muito comum também nas empresas e repartições onde o jogo de poder fica bastante explícito. Em ambos os casos, a figura do aproveitador é evidente; assim, vencido o medo do assediado, é possível tomar medidas práticas e mesmo jurídicas contra os que se usam de métodos excusos para agarrar sua presa ou obter dela comportamentos que lhe ferem as vontades. Mas há um instrumento bem banal, que se tornou um inferno na vida do cidadão comum. É o telefone.
O telefone encurta distâncias, economiza tempo, mas também franqueia nossas casas a invasores sem rosto, escondidos atrás de algum telemarketing. Resolvi contar o número de telefonemas que recebemos em casa para oferta de “produtos bancários” e de financiadoras. O número destas ligações superou três vezes as ligações recebidas de parentes e amigos. Quantas vezes precisei sair do banho, interromper uma refeição, um filme, uma leitura ou um trabalho de redação para atender àquela voz de aluguel que me propõe um negócio da China? Em casa, somos três pessoas que tem vida cadastrada e controlada como adultos normais. Não bastasse o lixo de papel que nos chega pelo correio através da venda odiosa de mala postal, ainda temos que conviver com o assédio de bancos, dos quais nem somos correntistas, que nos oferecem seus cartões, seu crédito, suas grandes vantagens, como se fossem nossos guardiões. Pior, o funcionário do telemarketing, quer nos repassar para um “consultor especializado”, e acaba levando uma saraivada de xingos que se agravam na medida em que o nosso saco vai ficando cheio. E eles persistem. Parecem carrapatos. Grudam no número do nosso telefone como se dele se alimentassem. E é assim mesmo que acontece. Os coitados ganham pouco e tem que suportar nossas explosões. Baixos salários para apanhar muito.
Tudo em nome de um patrão ganancioso e cruel.

terça-feira, 1 de julho de 2008

DE OLHOS ABERTOS

DE OLHOS ABERTOS

Se eu passar por uma rua onde tem um botequim,
E lá dentro uma louquinha bebe,
Se ela sair num repente alucinado e
Quase se jogar sob um carro de passante.
Se eu esquecer que ela existe e não tem roupas,
Nem calçados, nem ninguém;
Se os meus olhos desviarem e seguir em frente
Pensando apenas no presente do meu filho,
Tenha certeza, amigo, merecerei o escárnio dos anjos
E o desprezo dos céus.
Não pode ser festa a quem não sabe
Da dor alheia, da fome dos irmãos.
Não terá tempo novo quem não vive
O tempo velho com os olhos bem abertos.

Minha cidade há de acender as luzes
E catar em cada esquina um menor abandonado.
As mãos sensíveis levarão os curativos
Às feridas supuradas dos carentes.
Flores nas praças são colírios para os olhos,
Mas há de ter lugar aos namorados
Que o medo se esvaneça sob a lua,
Que sonhar volte a ser bom exercício.
Abram-se as janelas, cumprimentem-se os vizinhos,
Troquem os docinhos, falem do futuro.
Quero dançar na praça uma valsinha
Ao som da banda, ao lado do coreto. Dormir em paz,
É o sonho que acalento
A ti, a mim e a quantos estejam
de olhos bem abertos.

sábado, 28 de junho de 2008

REFLEXÕES SOBRE A PATERNIDADE

REFLEXÕES SOBRE A PATERNIDADE, OU, A NOSTALGIA DO PARAISO PERDIDO

Se vivo fosse, meu pai completaria 97 anos de idade. Quis a boa sorte que vivesse até os 91, e que eu dispusesse de uma deliciosa cumplicidade consigo durante 56 anos de minha vida. Ele era um homem muito simples, conhecedor das coisas da terra, hábil plantador do chão, humilde de origem, autodidata de formação. Vinda da terrinha mãe portuguesa, a família se aquietou nesse Brasil, comprou terras, fez horta, criou ampla filharada, sobreviveu à gripe espanhola, mas o casal teve morte precoce, deixando meu pai, aos 10 anos, completamente órfão e sem o cuidado dos irmãos mais velhos. Nem por isso virou um rebelde malvado. Nesta idade, tinha juízo para estar com pessoas boas, e muito cedo foi aquilo que hoje pejorativamente classifica-se como mão de obra infantil.Trabalhou para comer e dormir; em 1932 tinha carta de motorista e alistou-se para defender a causa constitucionalista de São Paulo, foi ao campo de batalha e retornou em bom estado para ajudar a reerguer a moral paulistana. Aos 28 anos, casou-se com uma foragida dos Balcãs e, aos 35, tornou-se meu pai.
Como se julgava incompetente para ajudar aos meus irmãos e a mim na escola, consultava-se com os amigos sobre os livros que deveria nos comprar. Comprou muitos, e nos conduziu pela trilha de uma cultura que a ele o destino negara. Soube aplacar minha mãe nos momentos da neura total, jamais surrou um filho, mas tinha sobre nós uma autoridade que não carecia de palavras, apenas de olhares.
Em 1985, vestiu-se bonito e foi assistir minha defesa de doutorado. Tinha um orgulho das minhas conquistas porque naturalmente se entendia como parte delas. Amava as crianças e dizia que o mundo podia ser “salvo” pelas gerações futuras; jamais censurou a maternidade de mães solteiras, desconheceu preconceito racial, abominou as guerras e valorizou o trabalho como redentor das pessoas e das sociedades. Internado, no último dia de sua vida, alertou-me que estava morrendo. Confirmei. Depois cantei para ele. Cantigas de ninar. Cantei embargada até perder a voz. Embalei-o até que adormeceu...
Ivone

sexta-feira, 27 de junho de 2008

PARA A MAMÃE DESESPERADA

Minha vizinha divorciada de 40 anos está paquerando meu filho de 16, e o pior, é que ele gosta...
Querida Jocasta:
Confesso que sua carta me divertiu muito. Imagino o bebê, a quem você retirou recentemente das fraldas, às voltas com uma pedófila fogosa, dona de perigos e conhecimentos que você nem suspeita... Lembrou-me um filme antigo de muito sucesso chamado “A primeira noite de um homem”. Pelo menos naquele filme o mocinho (Dustin Hoffman,1967) era ingênuo de verdade, mas eu aposto uma trufa de maracujá que os garotos de 16 anos de hoje, nada tem daquela inocência antiga. Também, pode desencanar, pois o seu guri nem de longe pretende lhe substituir.
Recorda-se de como antigamente os meninos eram iniciados? O pai, ou os amigos mais velhos, em certa noite de corujas piadoras, levavam o postulante a macho para a zona e pagavam uma tia maquiada como arara para fazer o adolescente virar homem. Era isso que você gostaria para seu filho? Ou então preferiria que ele desse uma rapidinha com a colega de classe, atrás do muro do colégio?
Sai dessa, minha amiga. Logo, ou ele se enjoará das manias dela ou ela se cansará de ser objeto das transas infantis e apressadas do seu filho. Digamos que, nesse momento, ele está testando sua masculinidade e ela calibrando sua capacidade de sedução. Não há amor que resista a tanta curiosidade distonante. Se você interferir nesta paixão de minuto, não só cairá no ridículo como correrá o risco de ganhar de presente aquele CD horrível que diz que panela velha também faz comida boa.
Mas há coisas positivas que você pode fazer por seu filho. Uma delas é dialogar bastante sobre coisas da vida. Coisas simples, coisas de amiga. Outra, é comprar para ele uma embalagem hospitalar de camisinhas e, sugerir ao menino que sexo seguro é coisa de cidadão de respeito.
Carinhosamente,
Ivone

quarta-feira, 25 de junho de 2008

GREGÓRIO DE MATOS DEVIA ESTAR VIVO

GREGÓRIO DE MATOS DEVIA ESTAR VIVO

Para quem gosta, a leitura é o pão da alma. Vive-se dela, cria-se um caso amoroso com as palavras, os sonhos, as histórias. Se a leitura for mais consistente, bebe-se dela o caldo saboroso das comparações. Caiu-me nas mãos esta semana o genial livro de Ana Miranda intitulado “Boca do Inferno”, romance histórico sobre a participação do Padre Vieira e de Gregório de Matos nas confusões políticas da Bahia do século XVII. “Boca do Inferno”, para quem não sabe, era o apelido que se dava ao poeta Gregório pelos poemas satíricos e agressivos que ele fazia cair no agrado do povo e o povo repetia como hoje repete o Créu e outras baixarias mais. Porém, naquele longínquo século XVII, a língua maldita de Gregório tornava-o um perigo para os governadores, alcaides, bispos e outros poderosos da época. Sua malignidade era tão devastadora que ele acabou sendo deportado para África, donde voltou para falecer aos 59 anos, em Pernambuco. Enquanto o Padre Vieira levava uma vida conventual e dedicada à escrita de cartas e Sermões, Gregório vivia entre as putas e os renegados; perdeu seu cargo eclesiástico porque não renunciou às orgias e à dissipação dos seus bens. Foi perseguido, preso, apanhou de asseclas dos governantes, refugiou-se nos prostíbulos, entre judeus e todos que a coroa portuguesa queria penalizar. Contudo, suas flechas eram certeiras e pontiagudas demais. Num poema dedicado ao governador ele se dirige assim: A vós, merda de fidalgos/ A vós, escoria dos Godos/Filho do Espírito Santo/E bisneto de um caboclo/ A vós fanchono beato... e por aí vai. Tudo bem, se ficasse no papel, mas canções deste tipo, iam rapidamente para a boca do povo que se comprazia em cantá-las pelas ruas da Bahia. Corrupção, usura, abusos de poder, assassinatos, intimidades de concubinato e sodomia, tudo era parte do repertório do poeta e, consequentemente, do cancioneiro popular.
Hoje, é possível dizer que o devasso Gregório foi subversivo, mas dá uma certa inveja de não ver o gênero bem usado pela turma do Creu e congêneres. Não haveria campanha política que resistisse ao “Boca do Inferno”.

O JAPÃO QUE EXISTE EM MIM

O JAPÃO QUE EXISTE EM MIM

Sou filha de um português com uma iugoslava. Quando criança, em minha casa comia-se comida tipicamente européia, misturando bacalhoada com apfelstrudel. As variedades tinham data certa para serem feitas. Bacalhoada era própria da sexta feira santa; sonho de reis, tomava a cozinha no dia 6 de janeiro; rabanadas, no Natal, e torta de maçã, nos aniversários. Naturalmente, houve uma adaptação de pai e mãe à culinária brasileira, então, o excesso de batatas foi substituído por arroz com feijão, e os doces de fruta entraram no cardápio, substituindo o acúmulo de ovos dos doces portugueses.
Na década de 60, quando cursei um preparatório para vestibular, caí de pára-quedas no bairro da Liberdade. Ali, fui apresentada à uma nova modalidade de comida e também uma nova maneira de ver o mundo. Já na faculdade, eu vinha da Cidade Universitária até o centro de São Paulo, a fim de desfrutar do sabor e do pensamento filosófico e religioso do Japão. Aprendi os preceitos básicos do Budismo na Comunidade Soto Zen da Rua São Joaquim. Lá por perto, na casa do monge Ricardo, aprendi a comer e a fazer sukiaki; encantei-me com os suaves docinhos de feijão e com a beleza plástica dos sushis e sashimis. Meu paladar deu uma guinada de 180º. Ademais, o monge Ricardo me deu de presente um quimono das Olimpíadas de Tóquio, e pelo molde daquela roupa, confeccionei outras tantas. Fui do comitê de recepção dos então príncipes Akiito e Michiko, aprendi cuidados cerimoniais e consegui uma disciplina interior que muito me valeu para toda a vida. Assumindo o Budismo, levei de quebra o desprendimento, e bem poucos sabem como isso alivia o sofrer individual. Vim parar em Mogi das Cruzes muito niponizada. Não conservei a tradição portuguesa nem a austro-húngaro dos meus pais. Deixei este legado para minha irmã. No entanto, não dispenso a comida japonesa nem o silêncio interior que tanto me enriquece. Leio as linhas, as entrelinhas, vejo os desenhos e absorvo os vazios de fundo, ouço o silêncio e partilho na alma a leveza dos bambuzais. Entre Mogi e Japão, entre compaixão e austeridade, estou em casa, suave como uma gueixa e feroz como um samurai.